Sete pecados capitais (7 contos)

Luxúria

Natália tinha trinta e oito anos, divorciara-se aos trinta e um e fizera o propósito de nunca mais voltar a se casar. Era dona de uma "pele de cetim"; muito branca, mas não de uma brancura qualquer. Tratava-se de uma tez delicada e macia, cuja coloração nívea era disfarçada, em sua face, pela tonalidade rósea das maçãs do rosto. A fronte ampla era encimada por gracioso "bico de viúva" configurado pela raiz de vasta cabeleira loira que ela prendia, quase sempre, na nuca. Os olhos eram esverdeados e, juntamente com um nariz comum e uma boca cujos lábios nunca conheceram batom, emprestavam às suas feições um aspecto harmonioso e atraente, embora não exatamente belo. Os seios ainda firmes exibiam aréolas delicadamente rosadas e terminavam em túrgidos mamilos que sugeriam se intumescerem ainda mais a um leve toque. Esta aparência do busto - aliada às discretas saliências do restante do tronco - dava ao conjunto do torso, uma ligeira impressão de ícone renascentista. Os membros superiores faziam lembrar D. Severina, a personagem machadiana de "Uns braços": "... belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina e não perdiam a cor nem a maciez por viverem no ar..." As coxas bem torneadas, lisas, também muito brancas e macias continuavam-se pelas pernas proporcionalmente bastante grossas e sob cuja pele, na face posterior, desenhavam-se delicados retículos venosos que, longe de desfigurá-las, funcionavam como uma espécie de fetiche atrativo. Os pés pequenos e elegantes terminavam em lindos dedinhos cujas unhas eram os únicos segmentos do corpo que ela ornava artificialmente, com um esmalte de coloração tênue, mas brilhante.

O temperamento de Natália era superficialmente tão frio quanto as esculturas de pedra com as quais foi comparada a sua silhueta. Reservada, quase não falava, somente o fazendo após avaliar muito bem o interlocutor. Assim mesmo, os temas de suas conversas limitavam-se ao trivial. Veja-se bem que não se mencionou "banal", mas "trivial". Trivialidade, para ela, variava desde literatura contemporânea a artes plásticas; de política a vida moderna; de esportes a culinária. Se a pessoa fosse um homem, sua reserva se transmudava no mais circunspeto recato a tal ponto que à simples menção de qualquer vocábulo correlacionado a sexo fazia-lhe corar e encerrar precipitadamente o diálogo. Atente-se, porém, para a citação do advérbio "superficialmente" no início deste parágrafo. Com efeito, ela era um exemplar típico daquilo de que fala Balzac num dos inúmeros trechos onde descreve a índole feminina: "Les femmes sont des poêles à dessus de marbre" É verdade. As mulheres são como estufas com cobertura de mármore; sua dissimulada frieza externa, jamais reflete o calor acumulado no âmago de suas almas. Com a ressalva de que, no caso de Natália, esse contraste entre temperaturas era infinitamente mais discrepante do que aquilo que sucede normalmente. Com efeito, por dentro daquela "tampa de mármore" crepitava uma fogueira! Diversamente das atitudes convencionais próprias do seu sexo, ela mesma escolhia e seduzia os seus parceiros. Só que havia uma distância astronômica entre o "escolher" e o "agir". Quando ela punha aqueles olhos verdes no macho eleito, não demonstrava, a princípio, nenhum sinal aparente do mais leve interesse; pelo contrário, se acaso viessem a interagir, aquela frieza se convertia numa leve hostilidade que ela manifestava através de uma sutil ironia. Se se tratasse de um médico, recitava, por exemplo, aquele famoso epigrama de Bocage: "Lê-se numa sepultura / De antigüidade afonsina: / 'Aqui jaz, quem não jazera, / Se jazesse a medicina'"; se acaso a "vítima" fosse um advogado, insinuava que todo causídico sobrevivia graças ao crime; a um escritor, atrevia-se a apontar pequenos solecismos porventura encontrados numa de suas obras, menos pela incompetência deste, mas pelos cochilos da revisão. Este aspecto do seu caráter a tornava antipatizada por quase todas as pessoas, sobretudo - pelo menos a princípio - pelo alvo futuro de sua conquista. Mas o gênero masculino humano é peculiar. Cada indivíduo costuma se sentir mais atraído pelas mulheres difíceis e arrogantes do que por aquelas que deixam extravasar, de imediato, os seus sentimentos afetivos em relação a ele. Seria, acaso, um arquétipo junguiano do caçador paleolítico, selecionado e condicionado pela natureza a fim de garantir a própria sobrevivência? Fernando Bandeira e Natália se encontraram pela primeira vez numa festa de formatura. Ele não era um Adônis, mas também nenhum Quasímodo. Tratava-se de um indivíduo de cinqüenta e quatro anos, mais para gordo do que magro e pouco mais alto que ela. Tinha, contudo, uma inteligência superior e era muito envolvente. Bastaram quinze minutos de conversa - e não somente com ela - para dizer consigo mesma: "É este!" Já ficou parcialmente explicado o método de conquista de Natália; o que faltou dizer foi que, quando ela percebia o interesse do outro, passava a brincar de gato e rato, ou melhor, de gato e gata; só que o comportamento de "gato" cabia a ela. Esboçava um sorriso misterioso e logo a seguir se fechava em copas. Insinuava atração e, ao mesmo tempo, disfarçava. Ficava nisto até encontrar a ocasião propícia para "dar o bote". Por "ocasião propícia", entenda-se, quando o "cara" já estivesse completamente apaixonado. Contudo, toda a iniciativa tinha de partir dela. Se ele caísse na tentação de cantá-la, tudo estaria acabado. Ou quase. Fernando ousou esboçar isto, foi asperamente repelido e - como era muito tímido - nunca mais repetiu. Ela sim. Investiu para ele com toda a força do seu caráter sedutor. Certa noite, após algumas palavras insinuantes, convidou-o abruptamente a saírem e foram, na cabine dupla de Fernando, parar numa praia deserta. Ela adorava transar ao clarão da lua e sob as estrelas! No caminho, não fez segredo daquilo que pretendia. "Não faças nada; apenas aquilo que eu mandar". O parceiro nunca tinha experimentado uma sensação igual àquela e, como detinha tendências edipianas, ficou encantado; mais do que isso, superexcitado. Os dois formavam um par perfeito: Natália adorava possuir; Fernando, ser possuído. Ela se excitava em ordenar; ele em obedecer. Uma vez na belíssima praia - com as ondas fluindo e refluindo a seus pés -, essa circunstância foi levada às últimas conseqüências. Despiram um ao outro lentamente. Qualquer açodamento da parte dele era punido com uma súbita interrupção do que ela praticava e isto quase o fazia explodir de desejo. Interpenetraram-se inicialmente com as línguas; cada qual a percorrer no parceiro, desde as mais recônditas reentrâncias, às saliências mais evidentes. Céu da boca, gengivas, soalhos, bochechas, dentes, as próprias línguas, foram sôfrega e lubricamente explorados, enquanto, mais ao sul da anatomia, montanha e caverna se encontravam. Quando ele não se continha e tentava chegar aos seios, ela impedia. Ficaram mais de uma hora neste atrito saboroso de mucosas que, para Fernando, era quase uma tortura se a tortura da espera não fosse, por si, deliciosa. A etapa seguinte custou pouco menos de outros sessenta minutos durante os quais Fernando desempenhou, sempre sob o controle de Natália, os papéis de massagista e de bebê. Cada um dos mamilos foi acariciado e sugado suave, mas intensamente. Durante o ato propriamente dito, ela fez questão de estar por cima; cavalgando-o, fazendo-o penetrá-la, mexendo os quadris, beijando-o, em suma desempenhando todo o papel que convencionalmente seria dele. Inicialmente havia apenas murmúrios que foram gradualmente se transformando em "ais", em suspiros, em gemidos, em urros e, finalmente, em gritos alucinados. Tudo isto foi reiterado durante três vezes no espaço de 5 horas ao fim das quais ambos tombaram exauridos. Despertaram com algo duro e frio pressionando suas têmporas. Eram quatro, os marginais. "Passem para cá qualquer objeto de valor ou lhes estouramos os miolos". "Não nos matem, por favor; podem levar tudo". Os meliantes apanharam mesmo tudo, embora sabendo que seria possível depená-los deixando-lhes, pelo menos, as roupas. Não o fizeram, contudo; levaram a cabine dupla, roupas, lingeries e até os calçados. "Praia deserta" não foi força de expressão. Caminharam nus durante quase quatro intermináveis horas antes de encontrar um abrigo.