Sete pecados capitais (7 contos)

Avareza

A avareza de Euzébio Vieira só poderia ser comparada à de Grandet, aquele famigerado personagem de "La Comédie Humaine", pai de Eugènie. Para se ter uma idéia da intensidade deste seu pecado capital, é imprescindível relacionar-se uma série de episódios burlescos atribuídos maldosamente a ele por seus mordazes contemporâneos. Dizia-se que, ao sofrer de uma cefaléia, atava um comprimido de aspirina à ponta de um barbante, deglutia-o por algum tempo - suficiente para lhe curar a dor - e depois o retirava para poupar o fragmento remanescente do remédio. Teria também por hábito, apagar todas as luzes do recinto ao papear com seus amigos, alegando não ser necessária nenhuma iluminação para entender-se uns aos outros; aproveitaria esta circunstância para baixar as calças a fim de evitar o desgaste do tecido. Conta-se, ainda, haver comprado um automóvel, mas logo depois o teria emparedado; que tinha por praxe saltar a grade de ferro de seu quintal com o fito único de economizar as dobradiças; averiguar o preço da passagem de transportes coletivos e - após cientificar-se ser gratuito o porte da bagagem -, despachá-la na estação rodoviária, seguindo ele próprio a pé durante todo o percurso. Euzébio talvez não chegasse a tanto, mas sem dúvida alguma se privava a si mesmo e a sua família do mínimo conforto indispensável a um modo de vida compatível com um homem rico como de fato o era. Morava com a mulher e um casal de filhos num pardieiro insalubre e sombrio, situado no subúrbio duma cidade litorânea. A alimentação consistia de um cardápio tão invariável quanto intragável, contendo uma quantidade ínfima de calorias; quase apenas o suficiente para a sobrevivência física sem desnutrição evidente. O capital de Euzébio, entretanto, era avultado. Avaliava-se em cerca de quatro milhões de dólares americanos e era a única razão do seu existir. Jamais o confiava aos Bancos. Seu patrimônio era quase todo constituído de lingotes de ouro pesando, cada um, cerca de quinhentos gramas e era literalmente conservado num imenso cofre sepultado a vários metros da superfície e ao qual somente ele tinha acesso. Era um homem de sessenta e seis anos de idade, mas só temia a morte pelo único motivo de ter de separar-se do seu tesouro. O simples pensamento de que seus herdeiros pudessem um dia vir a usufruí-lo, trazia-lhe calafrios, insônia, falta de ar e palpitações.

Salomé, a esposa tinha 57 anos; Bernadete, a filha caçula, 19; e Amarílio, 24. Possuíam todos os sentimentos possíveis e imagináveis em relação a Euzébio, exceto afeição. Mal se comunicavam com ele. Quando conversavam entre si a palavra mais utilizada era o advérbio "Depois". "Depois, nós vamos viver melhor; depois nós vamos viajar pelo mundo inteiro; depois, vamos nos mudar para uma mansão; depois, vamo-nos vestir com roupas da moda; depois, vamos jantar todos os finais de semana num bom restaurante; depois, vamos comprar um automóvel; depois, nossa vida será um mar de rosas". Por "Depois" entenda-se, "quando o velho morrer!" Quatro anos mais tarde ele sentiu o "depois" se aproximar. As palpitações aumentaram de freqüência e intensidade e passou a sentir fortes dores no peito ao despender o menor esforço físico; os tornozelos começaram a inchar e a falta de ar tornou-se quase insuportável, Euzébio entrou em pânico quando pressentiu para breve a cruel separação de sua amada fortuna, porém doía muito mais a perspectiva de sua fruição por parte de terceiros. Mas disfarçou isto o quanto pôde. Contratou os serviços da microempresa, proprietária de uma escavadeira a fim de perfurar um túnel partindo de cerca de 400 metros do seu "santuário" e desembocando lá. A cláusula contratual mais importante exigida por ele quando ajustou os serviços da empresa era que os trabalhos só se desenrolassem durante a noite, com o mínimo de ruído possível e a obra fosse camuflada como se estivesse perfurando um poço profundo sob o patrocínio da Prefeitura. Logicamente, para isto, ele teve - muito a contragosto - de subornar o funcionário público responsável pelo setor de operações da Secretaria de Obras do Município. Ao cabo de noventa dias o túnel estava pronto e somente cinco pessoas sabiam da sua existência: ele próprio, o funcionário corrupto, o proprietário da perfuratriz e os dois operários responsáveis pela execução dos serviços. Deste dia em diante, um véu de mistério desceu sobre o velho Euzébio. Todas as madrugadas ele se levantava pé ante pé para não despertar suspeitas da família, descia para o subterrâneo e, com a ajuda de um carrinho-de-mão transportava lotes de suas adoradas peças de ouro envolvidas em lonas de enfardar algodão - fazendo um enorme esforço, sentindo muitas dores no peito, além da falta de ar - até à extremidade de entrada do túnel, onde uma picape GMC, muito antiga o aguardava. Ele próprio punha tudo na carroçaria do automóvel, assumia o volante e partia para local ignorado. Repetiu esta operação durante cerca de sessenta dias alternados. Assim, ao se passarem quatro meses, havia esvaziado todo o seu idolatrado depósito. Contratou novamente os serviços da microempresa a fim de desfazer o túnel, recheando-o com o material escavado e deixando o "cofre sagrado" como se não houvera sido tocado. Evidentemente, para isto teve de se desfazer de boa parte dos seus quatro milhões para comprar - não apenas os serviços, mas, sobretudo - o sigilo dos quatro cúmplices.

Exatamente oito meses e nove dias após o do final de toda a operação, aconteceu o "Depois". Euzébio não agonizou, ou pelo menos interpretaram assim os seus familiares. Deitou-se às dez da noite, dormiu, e - pela manhã - Salomé o encontrou morto. Foi o dia mais feliz nas vidas da esposa e dos filhos, mas estes tiveram de se conter com muita dificuldade para não deixarem extravasar esta alegria. Afinal além de parecer estranho, poderia despertar alguma suspeita nas poucas pessoas participantes do velório e do enterro do usurário. Logo no dia seguinte às exéquias, mãe e filhos se reuniram e concordaram em fazer uma viagem de volta ao mundo a fim de inaugurarem os "Depois". Nem sequer ocorreu-lhes visitar o "cofre" pois davam como favas contadas o montante do seu conteúdo uma vez que o velho jamais fizera segredo disto e a própria Salomé, certa vez - num gesto de extrema e raríssima bonomia do finado - vira tudo, mostrado por ele próprio, tal qual um adolescente a exibir o seu primeiro automóvel à namoradinha. Para os círculos financeiros do lugar, também não era segredo a fortuna de Euzébio, embora ignorassem a existência e o sítio do silo de barras de ouro. Foi, por conseguinte, com extrema presteza, cortesia e solicitude que Gerentes de Bancos e Agentes de Turismo acolheram as requisições de financiamento feitas pelo trio, trinta dias após o sepultamento do patriarca. "Como não, por aqui; aceitam um cafezinho? Um chá gelado? Um refrigerante? Um uisquinho?" Iniciou-se assim um tratamento principesco o qual lhes era absolutamente estranho e, ao mesmo tempo, fascinante! Três Cartões de Crédito das marcas mais conhecidas no planeta foram oferecidos (e aceitos) a cada um em seus valores máximos, exceto o mais famoso destes, para o qual "o limite era o Céu". Diante de créditos tão fáceis quanto fartos, Salomé, Bernadete e Amarílio viajaram durante oitenta e sete dias. Na China, deslumbraram-se, sobretudo, com a Grande Muralha e a Cidade Proibida, mas conheceram também Hong-Kong e Macau; no Japão percorreram as principais atrações de Tokio e Kioto; Na Índia viram em Agra, o Taj Mahal, mas não se limitaram a isto, foram também a Bombaim, Goa, Kathmandu e Nova Delhi; fizeram um tour por toda a Polinésia Francesa e de lá esticaram à Austrália onde conheceram Sydney, Canberra e outras cidades não menos importantes; no Oriente Médio, estiveram na Terra Santa, Egito, com "escapadelas" até Atenas, Ilhas Gregas e Turquia; palmilharam toda a Europa Ocidental e boa parte da Oriental; foram à África do Sul; de lá voaram para os Estados Unidos, percorrendo o país "coast to coast". Para resumir, estiveram em todos os cinco continentes e viram maravilhas nunca sequer imaginadas. No dia seguinte à chegada fizeram as contas e tinham gastado duzentos mil dólares. Diga-se de passagem, haverem feito questão de primar pelo melhor. O Hotel de categoria mais inferior onde haviam estado foi em Lisboa, e pertencia à cadeia Sheraton! Para ter acesso ao cofre/silo tiveram de dinamitá-lo e, evidentemente, encontraram-no vazio. Desnecessário falar dos desmaios, choros, gritos, imprecações, fúria, ranger de dentes, desespero. Um detetive particular foi afinal contratado e, ao cabo de duas semanas, ficou-se sabendo da "operação túnel", graças à língua solta de um dos operários escavadores, quando este se encontrava sob o efeito da "pinga" a qual bebericava diariamente num dos botequins do bairro. "Ah velho escroto!" Repetia continuamente Amarílo no dia da infausta notícia. "Maldita esteja tua alma no inferno, seu Sacana", secundava Salomé numa espécie de ladainha satânica, onde a palavra ódio é insuficiente para expressar o real sentimento a consumir-lhes. Somente Bernadete permanecia calada, olhos fitos no horizonte vazio, completamente imóvel e indiferente a tudo, como se estivesse em estado catatônico. Contudo, permanecia uma dúvida e junto a ela, uma esperança. Para onde o velho teria levado o ouro? Mediante acordo prévio de uma divisão meio a meio - caso fosse encontrado o tesouro -, o detetive prosseguiu no seu encalço. Perseguindo pistas vagas, dispersas; ouvindo comentários de vizinhos madrugadores, conseguiu reunir algumas peças e montou um "puzzle" o qual levou-o a uma praia afastada, inóspita, quase desabitada e encontrou um barqueiro. Ficou tudo esclarecido. "Sim, conhecia 'seu' Euzébio"; "sim fora ele quem o contratara durante alguns meses para jogar sacos de entulhos em alto mar"; "não, nunca desconfiara de nada, pois este o dissera serem os removedores de entulhos uns ladrões, pois queriam cobrar-lhe os 'olhos da cara' para retirá-los de sua construção". "Como poderia desconfiar, se a avareza do velho era conhecida em toda a região?"