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O hippie erudito Quinze anos após sua morte, o cultuado poeta Paulo Leminski começa a ser aceito no meio acadêmico e ganha edição de inéditos João Bernardo Caldeira No dia 7 de junho de 1989, morria o poeta curitibano Paulo Leminski, aos 44 anos, vítima de cirrose hepática. De personalidade polêmica e arrebatadora, foi alçado à condição de mito da cultura brasileira graças à vida curta, porém intensa, e aos versos breves, mas profundos. Passados 15 anos da data, seu legado começa a ser melhor avaliado, já que a obra resiste ao personagem. Sua produção literária, popular porém ainda silenciada nas universidades, aos poucos atravessa os muros da academia - um reconhecimento que chega a tempo de celebrar o próximo dia 24, quando o poeta completaria 60 anos. Recentemente, foram lançados diversos livros e teses que dissecam a obra do poeta, que também escreveu em prosa, fez traduções e biografias e compôs canções gravadas por Caetano Veloso, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Cássia Eller. Em setembro, chega às livrarias A linha que nunca termina - Pensando Paulo Leminski (editora Lamparina), organizado por André Dick e Fabiano Calixto, com textos, ensaios e poemas de 42 autores, em sua maioria inéditos, sobre o autor de Caprichos e relaxos (1983). - A idéia era ressaltar a obra e não a pessoa. A maior parte dos textos foi feita por pessoas que não tiveram contato com ele - diz Fabiano, de 31 anos, pernambucano radicado em São Paulo e poeta da nova geração. Até o fim do ano, seus admiradores conhecerão também o livro inédito de contos Gozo fabuloso (DBA editora), trabalhado por Leminski pouco antes de morrer. Quem administra o baú do escritor é Alice Ruiz, sua ex-mulher, com quem teve três filhos. Também poeta e curitibana, Alice, de 58 anos, acha que o momento é propício para se redescobrir a obra do ex-marido. - Depois de 15 anos dá para se ter uma idéia das coisas. Desde menino ele amava o saber, mas foi tocado pelas coisas da nossa geração, a contracultura, o rock, e fez a fusão. Era da característica dele ser uma pessoa profundamente moderna no sentido de ver tudo o que acontecia em nosso tempo. Era um hippie erudito - avalia ela, que ainda hoje se emociona ao falar do companheiro. Para a crítica literária e professora de literatura da Universidade de São Paulo Leyla Perrone-Moisés, já está na hora de a academia incluir Lemisnki em seu currículo. Ela lamenta que o nome do poeta não circule na USP e aponta os motivos: - Ele era ligado à poesia concreta, que tem seus inimigos. Além disso, sua obra ainda não entrou para o cânone porque é um risco formar alunos com coisas que ainda estão acontecendo, por isso o programa é defasado. Ao mesmo tempo, isso evita que ele se torne um objeto morto, sacralizado. Na Universidade Federal de Minas Gerais, a mentalidade está mudando, acredita Maria Esther Maciel, que dá aula de literatura na instituição e teve um ensaio incluído em A linha que nunca termina. Ela comemora o lançamento recente de livros como Aço em flor - A poesia de Paulo Lemiski, de Fabrício Marques, e Leminski, guerreiro da linguagem, de Solange Rebuzzi: - Hoje, a resistência é menor do que há cinco anos. Já percebo que alguns professores daqui têm trabalhado poemas dele. Esses livros ajudam a quebrar barreiras. Muitos acadêmicos preferem estudar e exaltar o mais célebre livro de prosa de Leminski, Catatau (de 1975), do que sua poesia. A obra é rebuscada, ao contrário de seus versos, curtos e diretos. Em setembro, será lançada a revisão crítica de Catatau, que virá com glossário explicativo e apresentação de Décio Pignatari, que fazia parte do pilar da poesia concretista, ao lado de Augusto e Haroldo de Campos, todos grandes amigos de Leminski. Ele é um dos que separam Catatau de suas poesias: - Não é que sua poesia seja menor, ele levou oito anos para fazer Catatau e não suportaria passar outros oito anos da mesma forma. Então usou sua habilidade para fazer uma poesia que visava o grande público, assim como seu trabalho na música. Mas, antes, fez uma das prosas mais interessantes da literatura brasileira da metade do século passado. Leyla Perrone discorda da diferenciação: - A idéia do livro é absolutamente genial, mas seu estilo de poemas breves também deve ser valorizado, porque necessita de um poder de síntese enorme. Pensam que quem escreve coisa curta é porque ainda não escreveu coisa longa. Quando perguntavam para o (contista) Dalton Trevisan quando ele iria escrever um romance, ele respondia que seu ideal era o hai-kai. Embate concretista No calor dos anos 70 e 80, Leminski entrou em grandes polêmicas na defesa do movimento concretista, apesar de não ser considerado um poeta concreto por pessoas como Leyla Perrone, Alice Ruiz e Maria Esther, entre muitas outras. Os poetas Ferreira Gullar e Afonso Romano de Sant'Anna, que faziam críticas ao movimento, ouviram poucas e boas do curitibano. Hoje, Afonso reavalia a contenda: - Tivemos alguns arranca-tocos, mas são caneladas que acontecem em qualquer partida de futebol. Eu insistia que ele deveria achar sua própria linguagem, pois, enquanto ficasse na periferia do concretismo, seria apenas um afluente. O tempo aplacou desentendimentos, mas a visão crítica permanece: - Do ponto de vista poético, ele ficou retido no poema curto, essa poesia aforística e arriscada que pode cair na facilidade do achado, da graça. Foi um poeta interessante e inquieto que surgiu nesse contexto das vanguardas, mas acho que a presença esmagadora do concretismo sobre ele bloqueou uma trajetória que ele poderia ter seguido. É uma obra supervalorizada pela crítica. Ferreira Gullar diz que não conhece a obra de Leminski, mas, apesar das rusgas do passado, elogia: - Ele foi um poeta muito talentoso e cheio de humor. Não conheço a obra dele, mas os poemas que li são muito interessantes. Acho que todo poeta inventa a si mesmo e a sua obra. Ele conseguiu. Nem todos conseguem ter um desenho particular facilmente identificável. Artistas de gerações posteriores, como Arnaldo Antunes, de 43 anos, que compôs uma música em parceria com Leminski, têm nele um exemplo: - Sua obra é lapidar em vários momentos. Me sinto um pouco filho dessa movimentação toda da qual ele participou ativamente nos anos 80. Para Alice Ruiz, Leminski se destacou por sintetizar várias tendências literárias da época: - Se o Paulo tem algum legado é o de ter feito a ponte entre a poesia erudita e a experimental. Ele juntou a coloquialidade da poesia marginal com o lado mais elaborado do concretismo. Seus versos eram cultos mas ao alcance de todos. O jornalista e amigo de Leminski Toninho Vaz, que escreveu a acurada biografia Paulo Leminski - O bandido que sabia latim (editora Record), arremata: - Cada vez que tentam bater nele o mito cresce mais. É como diz Jorge Mautner: ninguém amou tanto a poesia quanto Paulo Leminski.
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