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Mirian
Toda criança desperdiça o sonho
E a vida que lhe foi depositada,
É esculpir no gesso o nosso empenho
Buscar ser imortal na cria amada.
A carne que era minha, alienada
De mim, torna-se carne diferente
E o que em mim concebi não reconheço
No rosto que se torna de outra gente.
Toda criança é dona do segredo
De todo humano ser divinidade
Mas, cada instante em que se torna grande,
Decai o Deus na velha humanidade.
E o sangue que era meu, já corrompido
Por minha expectativa, se transforma
Em coisa mais comum, um arremedo
De sal e de ferrugem, de água morna.
No fim, toda criança decepciona,
No fim, toda criança é abortada,
No fim, toda criança é só mais uma,
No fim, toda criança é nada.
Patrícia Clemente
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