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Fumaça VI
Mortal, em som e fúria, ela se agita,
Que coisa perigosa é a convicção!
A ira santa e prenhe de maldade,
A branca e bela e pura Inquisição.
Mas até quando, Deus, suportaremos
O ódio dos que pensam que são bons?
E como, Allah, nós sobreviveremos
No inferno da ausência de outros tons?
A velha hipocrisia, novos temas,
Tudo se muda pra tornar-se o mesmo.
A velha burguesia, novos lemas,
Mantendo seu mundinho bem coeso.
Repete-se de novo a velha história?
Nós não sabemos sempre como acaba?
Ferozes pregadores, tão bondosos,
Não vertem pelo cantos sua baba?.
Se ofendem, se torturam, se segregam,
Em nome das estúpidas verdades.
Afastam o prazer de suas vidas.
Alegram-se em seu jogo de vaidades.
A velha insanidade, novos temas,
Agarram-se os cativos nas correntes.
A velha obscuridade, novos lemas,
Com seus valores, todos bem contentes.
(Patrícia Clemente, anjo, deixe-se de asneiras!
Cê já devia tá acostumada...
Retire ao filisteu sua bandeira,
E o que lhe resta nesta vida? Nada?
Ah sim! Há o sentir-se, o conhecer-se,
Buscar em si o que há de germinal...
Bebeu? Isso vai dar muito trabalho!
Melhor ser frouxo, ser bom moço, ser banal!)
A velha intolerância, novos temas,
É curta a vida que eles jogam fora.
A velha negligência, novos lemas,
Não fazem versos antes de ir-se embora.
Mas em fumaça, enfim, termina tudo:
A fé, religião, certeza ou crença,
Fumaça de esperança consumida
No fogo dessa inútil desavença.
Escura, a ditadura do bom senso
Estende suas névoas sobre o mundo;
E eu fico a olhar os fios da nicotina:
Prazer pra mim! E o que há de mais profundo?
Patrícia Clemente
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