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Amar uma vez e sempre
Kátia Vevel, Rio - A rigor, a sua tragédia não
existe: ou só existe de uma maneira muito relativa. O mais
importante, o fundamental, você tem: ama e é amado. E
se quer obter um
mínimo de felicidade, parta, sempre, do seguinte princípio:
o verdadeiro amor não pode ser integralmente feliz. Você
sabe qual é o grande erro da maioria absoluta das mulheres?
Ei-
lo: - achar que o fato de amar implica, obrigatoriamente, a felicidade.
Quem ama, pensa que vai ser felicíssimo; e estranha qualquer
espécie de sofrimento. Ora, a vida ensina,
justamente, que duas criaturas que se amam, sofrem, fatalmente. Não
por culpa de um ou de outro; mas em conseqüência do próprio
sentimento. É exato que os amores têm seus êxtases
deslumbrantes, momentos perfeitos, musicais etc. etc. mas eu disse
"momentos" e não 24 horas de cada dia.
Quando uma mulher apaixonada se queixa, eu tenho vontade de fazer-lhe
esta pergunta: "não lhe basta amar? Você quer, ainda
por cima, ser feliz?". Pois o destino quando concede a graça
inefável do amor, subtrai uma série de outras coisas.
Antes de mais nada, o sossego. Quem ama, não tem sossego, perdeu-o,
para sempre. A intensidade de qualquer amor é, por si mesma,
trágica. Você, minha doce amiga, escreve: "tenho
ciúme de tudo e de todos". E isso já implica num
sofrimento incessante e atroz. Mas, acontece uma coisa com os sofrimentos
do amor: eles se tornam um hábito, se fazem necessários
e, no fim de certo tempo, se incorporam à nossa vida, participam
dela, de maneira integral. Sofrer pela criatura amada - permita que
lhe diga - não é um mal, é quase um bem. Você
conhece tristezas mais lindas, mais inspiradoras, do que as tristezas
do amor? Não, não há minha querida amiga. Uma
pessoa sensata diria: "são tristezas", ao que eu
replicaria: "Mas de amor!". E tristezas desta natureza valem
qualquer alegria.Vejamos, porém, concretamente, o seu caso.
Você, há tempos, teve uma lesão pulmonar. Não
sei se a chamada "peste branca" espanta alguém. A
mim, não. Nem doença de espécie alguma. Se
há amor, qualquer espécie de enfermidade, ainda as mais
atrozes, torna mais doce e mais fortes os vínculos que unem
duas criaturas. E mais vale uma lesão pulmonar do que uma
lesão de caráter, uma lesão de alma. As únicas
doenças que realmente, me assustam são as morais. Durante
o seu tratamento, você ficou em uma tal prostração
que, digamos, se desinteressou da vida. Foi um mal, cara amiga. Se
lhe faltava saúde, sobrava-lhe, no entanto, uma série
de outros dons, para merecer a vida e dignificá-la. Mais tarde,
quando você ficou boa, encontrou-se acidentalmente, com aquele
que seria o seu bem amado. Um olhar, um brevíssimo flirt
e este resultado maravilhoso: um amor recíproco e definitivo.
Mas sucede que havia uma outra se interpondo entre vocês dois.
Uma outra que não fazia o seu bem-amado feliz; que não
o compreendia; que não tentava um esforço pela sua felicidade.
Ele tinha companhia e era solitário. Ora, não há
pior solidão do que estar mal acompanhado. Mais vale o deserto
do Saara. Assim, ele encontrou, em você, toda a ânsia,
toda a sede de amar. E você o retribuiu, apaixonadamente. Então,
começou o que você chama o seu martírio. Você
sofria e isso o espantava. Se você tivesse experiência
de vida, saberia que o sofrimento, maior ou menor, é inseparável
do amor. Impossível amar sem sofrer. E quando não há
motivos concretos, a pessoa os inventa. O amoroso, ou amorosa, é,
por excelência, fabricante de fantasmas, fabricante de possibilidades
sinistras. Chega-se a sofrer por hipóteses as mais remotas,
as mais inverossímeis, as mais absurdas. Imaginemos o marido
de uma senhora honestíssima. Ele se põe a pensar: -
"e se ela, um dia, me trair?". É isto que eu chamo
sofrer por hipótese. Você sofreria, Kátia, se
a situação fosse outra, e outras as circunstâncias.
Contente-se com momentos de felicidade, não queria ser feliz
as 24 horas do dia. Não sonhe com uma felicidade que não
é compatível com a nossa condição humana.Você
me perguntou se deve contar a criatura amada o seu
ciúme. Acho que não. E explicarei por quê. Na
minha opinião, a grande sabedoria, em amor, consiste em ter
o ciúme e escondê-lo, ou , então, dar ao ciúme
uma exteriorização muito pouco agressiva, muito pouco
truculenta. Ouça, Kátia: não acredite que o seu
bem-amado a traia. Mesmo que ele quisesse, não o conseguiria.
Ninguém gosta de duas pessoas ao mesmo tempo. Assim como ele
é o único homem para você, você é,
para ele, a única mulher na face da Terra.
Nelson Rodrigues (Myrna escreve)
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