| Delicado
Primeiro, o casal
teve sete filhas! O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça,
numa exclamação única e consternada:
- Papagaio!
Era um santo e obstinado homem. Sua utopia de namorado fora um simples
e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina,
mais outra, uma terceira, uma quarta e outro qualquer teria desistido,
considerado que a vida encareceu muito. Mas seu Macário incluía entre
seus defeitos o de ser teimoso. Na quinta filha, pessoas sensatas
aconselharam: "Entrega os pontos, que é mais negócio!".
Seu Macário respirou fundo:
- Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho
homem!
Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de
tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjôos, desejos,
tranqüila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro
fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem
uma careta. O marido sofria mais. Digo "sofria mais" porque
o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem
emocional. O caso dava o que pensar, pois Macário tinha na boca uma
chapa dupla. Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si
um suspiro em profundidade; e anunciou:
- Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!
NOVO PARTO
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário
estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era
uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira
espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu:
"Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou
seu Macário:
- Meus dentes estão doendo!
E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era
a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi
chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna
profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali,
e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve
de passar-lhe um sabão:
- Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!
EUSEBIOZINHO
Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar.
Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega: "Levou algum ponto?".
Ralharam:
- Sossega o periquito!
O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido
o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu: "Tenho
um filho homem. Agora posso morrer!". E, de fato, quarenta e
oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no
prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa. Para d. Flávia foi
um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve
que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o
peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próximo:
- Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!
FLOR DE RAPAZ
Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias,
das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer
homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam
dos outros meninos. Recomendavam: "Brinca só com meninas, ouviu?
Menino diz nomes feios!". O fato é que, num lar que era uma bastilha
de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido
um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura
de modos, idéias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas
criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam
afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos
se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem
visitar a família e pergunta:
- Você tem namorada?
- Não.
- Nem teve?
- Nem tive.
Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas
mulheres transidas com os vaticínios mais funestos: "Vocês estão
querendo ver a caveira do rapaz?". Virou-se para d. Flávia:
- Isso é um crime, ouviu?, é um crime o que vocês estão fazendo
com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá! Implacável, submeteu o sobrinho
a uma exibição. Apontava:
- Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!
PROBLEMA MATRIMONIAL
Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe
e filhas se entreolharam: "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito
egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao
rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial
do tio, bufou:
- Está muito bem assim!
A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa
vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou: "Não, meu filho. Seu
tio tem razão. Você precisa casar, sim". Atônito, Eusebiozinho
olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:
- Casar pra quê? Por quê? E vocês? - Interpela as irmãs:
- Por que vocês não se casaram?
A resposta foi vaga, insatisfatória:
- Mulher é outra coisa. Diferente.
A NAMORADA
Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe,
irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho.
Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético
é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo
dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que
tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante,
lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror
no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam.
E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala
ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos.
De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do
romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente
incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra
constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente
e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu:
"Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu?
Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!". Ocorreu, então, o
seguinte: sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço.
O desgraçado crispou-se, eletrizado:
- Não faz assim que eu sinto cócegas!
O VESTIDO DE NOIVA
Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu,
frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular
e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana
esse modelo?". A reação do rapaz foi surpreendente.
Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo
pela gravura:
- Que beleza, meu Deus! Que maravilha!
Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava
Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido
à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram
metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram
a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse
para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto
Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento:
"Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto
que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:
- Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!
O LADRÃO
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo,
Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!".
Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme:
"Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres.
Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão:
alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento
sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido
de noiva!". Para quê? Ela se insultou:
- Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!
Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante: Quem
poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações
resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois,
pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso
no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda - enforcara-se
Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero
ser enterrado assim".
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