A poesia de amanhã

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Hoje, ninguém suporta essa metrificação. O progresso no verso consistiu, portanto, em abolir a repetição das palavras sempre as mesmas, que constituíam toda a poesia primitiva; abolir a repetição dos estribilhos, que tinham ficado como uma reminiscência daquela primeira fase; abolir os metros, em que havia a repetição muito uniforme de frases do mesmo número de sons, o que sucedia nos versos de 9 a 11 sílabas.

E não parou aí.

Dantes, o enjambement era uma licença, uma coisa que se tolerava. Cada verso devia ter uma pausa natural na última sílaba forte, cada estrofe ter uma pausa no fim do último verso.

O progresso consistiu em quebrar todas estas simetrias e regularidades. O essencial é que o pensamento de exprima bem. Há, é certo, alguma regularidade de distribuição dos acentos tônicos, das rimas sem o que não haveria versos. Mas o poeta, dentro da variedade de metrificações diversas, varia também os ritmos.

O verso representa a parte musical da expressão do pensamento. Ele se destacou do canto, pretendeu ser a sua própria música. Ficou-lhe, porém, a orientação original, quase se diria: o impulso hereditário. E a sua evolução, lidando com sílabas, foi inteiramente análoga à da música, lidando com notas.

Também a música primitiva é fortemente ritmada. É monótona, é acentuada. O tipo da música primitiva é a música para dança, na qual é necessário marcar bem o compasso, para comandar a tempo os movimentos.

Mesmo sem se tratar das composições destinadas a esse fm, a música tinha outrora esse caráter acentuadamente rítmico. O progresso consistiu em dar mais variedade aos ritmos. Entre a música para um batuque, um trecho sentimental de ópera de Rossini e um trecho de Wagner, há esta gradação: maior liberdade de ritmos. O ouvido, mais educado, percebe cada vez melhor ritmos cada vez menos brutalmente acentuados.

Que lê a Oração à luz de Guerra Junqueiro, Le Laudi de D'Annunzio e Les villes tentaculaires de Verhaeren e muitas das poesias de Santos Chocano acha que é exatamente isso que distingue as formas mais modernas da poesia, das antigas formas, cadenciadas, embaladoras e, por isso mesmo, monótonas.

Ora, essa evolução parece que leva à extinção da poesia isto é: ao acabamento da forma metrificada.

Dizem alguns que isso seria um empobrecimento do pensamento humano, que ficaria desfalcado de uma forma de arte. Mas que é exato. Ao passo que se trabalha melhor a prosa, o ouvido aprende a discernir também melhor nuances delicadíssimas.

Há mesmo um fato notável: a maioria dos poetas passa a escrever em prosa. Não faltam grandes prosadores, que tenham começado como poetas. Mas o que falta absolutamente é um exemplo um só que seja! de um grande prosador que tenha passado a grande poeta.

Assim, portanto, que o artista da palavra se sente senhor absoluto das várias formas de expressão, o progresso individual para ele consiste em passar da poesia para a prosa. A marcha inversa que seria uma marcha regressiva ninguém fez. É, por conseguinte, perfeitamente lícito supor que a Humanidade seguirá o mesmo caminho.

Nem se precisará para isso de muito tempo. Durante os séculos XVII, XVIII e princípio do XIX, as obras de poesia representavam dez por cento da produção literária. Hoje representam três por cento, com tendência a diminuir.

Dizem que a poesia é inimiga das cifras. Estes dados provam que as cifras também são inimigas da poesia... Elas patenteiam a sua irrecusável decadência.

Mas o essencial é que o pensamento humano se possa transmitir o mais completamente possível e que saiba descrever, e que saiba narrar, e que saiba comover... Nisso ninguém dirá que estejamos em regresso. Ao contrário!

Dantes, quando um poeta empreendia tratar de um certo assunto, o seu primeiro cuidado era escolher uma metrificação: seria em versos de 12, de 10, de 7 sílabas... Uma vez assentado isso, era então que ele começava. Os grandes poemas são assim.

Mas, esse fato, que a muitos parece natural, é, do ponto de vista lógico, uma aberração. É pelo menos um exercício de deformação sistemática da expressão do pensamento. De antemão, o escritor dizia: "Eu vou pensar, por frases de um certo número de sílabas; vou obrigar minhas idéias a saírem, em fatias regulares de tantas ou quantas sílabas. Não sei ainda quais serão as idéias que terei de exprimir; mas já sei que esticarei as curtas e podarei as compridas para as meter dentro de um molde preestabelecido arbitrariamente!" É perfeitamente absurdo.

Mas como esse absurdo é cômodo, porque ele tem moldes numerosos, que é sempre fácil imitar, a maioria dos poetas contemporâneos continua a versejar por esse sistema.

A grande dificuldade é achar para cada pensamento a forma própria, o ritmo adequado a forma, que só a ele convém, o ritmo, que melhor o pode traduzir.

A maioria das poesias em metrificação variada, nas quais os versos de todos os tamanhos se entremesclam, são abomináveis. Parecem prosa e prosa má. Mas é assim na mão dos poetas medíocres. Na dos grandes, a dos Guerra Junqueiro, dos d'Annunzio, dos Verhaeren, dos Santos Chocano essa metrificação tem uma beleza extraordinária.

A dificuldade para os medíocres é que não podem achar modelos. Precisam ao mesmo tempo ter as idéias e escolher-lhes a forma adequada. O que um fez não serve de norma a outro. Não há nessa poética nova lugar para imitadores vulgares.

Quando, por conseguinte, alguns críticos se insurgem contra a variedade de metrificação, usada na mesma poesia, dizendo que quase todas as poesia desse gênero são detestáveis não lhe fazem uma censura. Fazem um elogio. Essa forma não está ao alcance dos medíocres. Fazem um elogio. Essa forma não está ao alcance dos medíocres. Se os grandes e talentosos podem servir-se dos moldes correntes com superioridade, a inversa não se dá. É preciso ter mérito próprio e superior para poder lidar com esse processo de metrificar, cuja aparente facilidade é um laço em que os medíocres revelam logo a sua mediocridade.

(Revista da Academia Brasileira de Letras, vol. 1, 1910.)

Medeiros e Albuquerque