Fornida

Poderíamos dizer que era fornida: robusta, nutrida, carnuda!

Linda baiana do interior, uma das filhas de um rico latifundiário. Cabelos castanhos, encaracoldados, ancas firmes, olhos obsecados pela beleza e postos constantemente num pequeno lavrador, sua paixão. Numa festa beneficente da redondeza, conheceu esse amor. Encontravam-se às escondidas. Ele não era doutor!

Era época de ditadura. E vendo os militares no poder, o pai achava que ela faria um bom casamento com um deles. Na sua formatura de professora o conheceu. Hugo logo se encantou. Viu nela a futura matriarca, a provedora de fundos, a força para procriar os filhos. Como Capitão do Exército, aquelas estrelas no ombro e sua juventude encantava as mocinhas da redondeza. Porém o objetivo dele era Solange. Conquistou pois o pai da jovem que foi logo arranjando o casamento. Dois interessados na felicidade deles mesmos, e não na felicidade dela.

A mocinha sofria, se desesperava. No entanto, não teve como escapar. Casou-se com o Capitão. Infeliz, mas cheia de filhos que preenchiam o seu tempo. Acostumou-se com o militar. Ela era um bom marido. Frio, calculista, mas não lhe batia. Provia o lar. Dava ordens como na caserna e ela obedecia. Já estava acostumada. O pai era assim também...A vida era para ser arrastada e não vivida. Certa manhã, acordou com o marido passando mal. Desceu as escadas para chegar ao telefone da sala, pedir socorro, ligar para o médico. Quando subiu, o marido estava morto... Deixou-lhe uma boa pensão e a liberdade. Li - ber- da- de. Solange não sabia o que fazer com isso.O que era LIBERDADE?

Descobriu logo. Mudou-se para Brasília para os filhos estudarem e para as mulheres dessa irmandade não cairem de novo em mãos que ordenassem, pois o avô já mostrava suas garras novamente. Na capital, respirou aliviada. Adorava o nascer e o pôr do sol. Caminhava e apreciava cada flor do serrado. Reaprendeu a sorrir, sentiu-se jovem, atraia olhares, mas o medo a fazia continuar só! Liberdade é bem que não se compra, dizia!

Passeando pelo Lago Sul, sentiu-se mal numa bela tarde. O mal estar prosseguia, dia após dia. Levaram-na ao hospital. Nada aparecia e o mal a consumia. Fizeram exames mais detalhados. Tanto fuçaram que descobriram: Câncer no seio. Operação urgente. Retirada total do belo seio daquela moça fornida que tanta atenção já chamara. Passou pelo sofrimento psicológico primeiro, depois os milhares de sofrimentos físicos: a amputação! Uma feia cicatriz! Quimioterapia, radioterapia...

À noitinha de um dia frio de junho, já bem enfraquecida, tocaram a campainha de sua casa.Foi até a porta, caminhando lentamente Ao abrir desfaleceu. Era Léo. Seu amor, seu namorado, seu homem amado. Ele gritou pelos filhos que vieram correndo e não o conheciam. Ela frágil, recobrando os sentidos, explicou a todos quem era aquele homem tão bem vestido.

O amor explodiu em festões multicores. Ele soubera dela, da doença , da viuvez e viera buscá-la. Os filhos não concordaram. Mas deixaram o amor florescer. Seria bom para ela e depois ele e era advogado, respeitado...

Ela envergonhava-se, sentia-se feia, enfraquecida. Ele continuava na Bahia, rezava, pedia por ela. Quando vinha à Brasília, ou a serviço ou só para vê-la , ficavam juntos. Na hora do amor, beijava a cicatriz com o maior carinho. Ela confidenciava que com ele descobriu o orgasmo. Algo que achava que não existia.

O médico havia lhe dado 1 ano de vida. O amor ofertou-lhe oito. Nesse leilão de vida e morte, venceu a felicidade. Foram os oito anos mais felizes da vida deles.

Quando finalmente ela se foi, sem sofrimentos, mas tão magrinha, um belo sorriso no rosto, deixou no criado-mudo milhares de cartas, cartões, bilhetinhos, flores secas, marcas de batom em papéis perfumados de amor.

Ele tornou-se pai daqueles filhos já adultos. Visita-os. Recorda-se dela e chora. Nunca fora tão amado. Diz que ainda vão encontrar-se e poetisa: Nesse momento, espero ter a nosso favor, uma magnífica tarde de sol, para que de mãos dadas possamos agradecer ao Criador!

BSB - 31/01/2004

Margaret Pelicano