Imigrantes

Um bule de latão
com café esperto no fogão
O castiçal de zinco sobre a mesa
a vela acesa...

Era o cenário daquela vida de engano
Um filho por ano
algo desumano
Os mais velhos em abandono
Ao Deus-dará
Os cuidados eram para os pequenos
Um na barriga
Outro no colo amamentando...
Um a saia da mãe puxando...
Uma remelenta recebendo vaia na escola rural:só humilhação...
O mais velho montando burro bravo,
caindo no chão,
um outro, o do meio
matando aula, soltando pipa, comendo goiaba
magrinho de arrepiar,
pescando piaba...

O pai, na vida dura da roça
plantando, colhendo, moendo o cereal...
não sabia o que era uma brincadeira, uma troça
sempre sério e triste...

A mãe: lavando, cozinhando, dando sapecas na molecada
coarando roupas nas pedras do rio,
fazendo massas para alimentar aquela tropa faminta e desigual...
acabou perdendo o rosto delicado.

O tempo voando.
Ela tão linda envelhecendo.
A vida acabando,
feito café no bule
que vive fervendo e chiando...
A vida: um café requentado...
O marido...maltratado, acabado
Pura ruga no rosto embotado
embaçado pelo temporal dessa existência que não foi vida,
nem sol, nem festa... nem nada...

BSB - 11/11/2003

Margaret Pelicano