Português, indígena e negro

Até meados do século XVIII, a literatura brasileira, isto é, a manifestação dos sentimentos da nação brasileira considerada como um agregado moral, uma família espiritual ligada por tradições e aspirações comuns, não existe. Constitui um mero prolongamento da literatura da metrópole. Afora as tendências gerais que em certos períodos tem arrastado o gosto literário numa determinada direção, por exemplo, o movimento culteranista do século XVII reagindo em todo o Ocidente europeu contra o exagero da imitação clássica, e a renovação romântica do começo do século atual indo beber a inspiração nas fontes medievais; Portugal sobrepunha-se primitivamente à sua colônia com toda a superioridade de um meio educado e culto, pouco próprio a ser comparado com um campo de luta física pela existência, onde aos batalhadores quase se não ofereciam ócios para emoções poéticas nem para especulações filosóficas.

Os aventureiros rixosos e os colonos laboriosos que abordavam à terra de Santa Cruz sob o comando de cavaleiros sem vintém e de abastados fidalgos empenhados com todos os seus cabedais numa problemática empresa de exploração, desembarcavam ávidos, não de errar contemplativamente pelas magníficas florestas virgens em busca de impressões novas, mas de arrecadar com a ganância ditada pelo sangue semítico que lhes borbulhava nas veias, uns saquitéis de ouro, ou pelo menos de pedir à terra ferassíssima produtos que os valessem. Na tarefa contínua, tanto de manejarem a picareta e a enxada como de desenferrujarem a espada, mareada na enfadonha travessia, no sangue dos indígenas antropófagos e dos invasores estrangeiros, escasseava certamente o tempo para desfastios intelectuais. Contudo, nesta comunidade de esforços para o embate oferecido às flechas e ciladas dos aborígenes, aos canhões e frotas dos europeus desde Villegaignon até Duguay-Trouin; nesta fraternidade de pensamento de defesa, ia-se formando nos esparsos núcleos de civilização o sentimento nacional, o qual entra a revelar-se com maior clareza na segunda metade do século findo, emprestando desde então à literatura, começada a florescer com mais palpável vigor, o seu ar particularista. Até esse instante as letras brasileiras apresentam com raríssimas exceções, a de Gregório de Matos Guerra, por exemplo, uma imagem pouco brilhante das modificações por que passava na metrópole a corrente das idéias debaixo da ação de influências estrangeiras.

Hoje ainda a grande nação sul-americana conserva no seu organismo político e social a vibração do longo domínio português, não tendo igualmente conseguido distanciar por inteiro a sua literatura, desabrochada com tamanha louçania, da poderosa influência étnica que pesa sobre todas as manifestações de vida do país. Na composição do forte produto mestiço, tipo diferenciado que forma o brasileiro, entra o português como fator preponderante. Evidencia-se fisicamente no predomínio da cor branca e psicologicamente, entre outras expressões, na esplêndida irradiação do lirismo brasileiro, talvez a mais bela prova de emoção da América do Sul, que diretamente se filia no doce e melancólico lirismo português, o qual no século XVI produziu Bernardim Ribeiro e Cristóvão Falcão e recentemente gerou Soares de Passos e João de Deus. De fato os estrangeiros que têm realmente estudado a literatura portuguesa, são concordes em atribuir à sua poesia lírica um cunho de ternura e à pastoril um ar de suavidade superiores às dos outros países do Meio Dia, e especialmente dissemelhantes da pompa e altivez espanholas.

Representando o Brasil histórica e moralmente uma nação, com fronteiras delimitadas na sua maioria, constituição peculiar e tradições locais cimentadas, é justo que a sua vida espiritual tenha deixado de ser uma simples prolação daqueles habitantes da faixa mais ocidental da Europa, que descobriram, conquistaram, dominaram, povoaram ou modelaram tantas regiões desconhecidas. Todavia, muito embora a mudança de meio e o cruzamento de raças diversas já redundassem em diferenças antropológicas, e a mesma língua se haja dialetado por motivos de clima, aproximação de idiomas estranhos, divergência de idéias e sentimentos, e outros, não é por ora completa a emancipação intelectual da antiga colônia portuguesa, posto que presentemente libertada de importadas normas políticas e em caminho de funda, conquanto pacífica, reorganização social. O tipo do brasileiro, tipo distanciado dos seus fatores componentes e em via de realização, diariamente denuncia-se dotado de atividade própria na grande empresa renovadora da sua nacionalidade, que mau grado interrupções momentâneas, alheias à genuína expressão pátria, estabelece-se com simpatia e manter-se-á com vigor. Foi ele que surgiu por entre o fácil esboroamento das velhas formas bastardas do trabalho servil e do império centralizador, transformando os escravos em verdadeiros cidadãos, e firmando a íntima federação das províncias da véspera, ciumentas e divergentes, em um pacto confiado e democrático de Estados autônomos. É ele que há quatro séculos quase funde incessantemente as três raças - branca, cabocla e negra -, retirando do cadinho em que se opera este cruzamento físico, ou pelo menos moral, conforme muito judiciosamente os distingue o Sr. Silvio Romero, a consciência de constituir um produto no seu alvorecer.(...)

(Aspectos da literatura colonial brasileira, 1896)