|
Os Coleccionadores de Deuses
O Minotauro
I
Pasífae
Não sabe que mais há-de pedir a Dédalo
para calar a febre a que desceu -
parir monstros não é mal que a torture:
belo é o touro branco e não se esgota.
De há muito, que se ouvem os gritos dela
e o arfar o boi nas madrugadas de Creta,
e do palácio que tresanda a repetido coito,
saem os filhos em noites sem lua, para que
no mundo reinem as trevas e da Terra
não se extingam os insaciáveis monstros.
II
Andrógeo
Seria um deus que mataram? Os deuses
morrerão? Ou mataram o atleta vencedor?
Ou nem deus nem atleta morreram, e foi
uma sibila ou sacerdote que os inventou,
para ocultar o velho pecado dos homens?
É a inocência que se perdeu, dizem, mas
a inocência não existe e por isso, como Atenas,
as cidades de todo o mundo não se revoltam
e tributam ao Minotauro efebos e donzelas.
III
Minotauro
Não lhes devorava a carne e sim a alma,
quando entre os flancos a carne penetrava.
Não era filho da deusa, mas do caos
de que surge o pesadelo: torvos os olhos,
a cabeça horrenda, de cio bramava
firme no propósito com que cobria.
E, envelhecendo, a maldade refinava
e mais ria do mito de Teseu:
ao morrer soltou estrondoso brado
e aos sedentos humanos o sabor
das vítimas e os vícios legou,
por testamento há muito concebido.
IV
Ariadne
Lembra-se ainda a filha de Minos,
não de Teseu a ter raptado ou dela
ao monstro o ter levado, mas da vida
nada saber senão após o duro exílio
em Naxo, e sorri, agora que repousa,
entre os astros, depois de mil vezes
ter gozado com o vigor de Baco,
olhando os humanos que no pódio
cingem de glória sacanas e velhacos.
|