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Os Coleccionadores de Deuses
Moiras
I
Cloto
Será de todo ignorante do que seja
viver, se pensa que o dobar da roca
é esse fio que apura: desconhece as
outras irmãs, o que são e fazem?
Não entende o movimento perpétuo
com que quer que a vida se pareça?
Ou, pelo contrário, com cinismo,
assim revela que o existir dos homens
é tão baço e ao trabalho dela tão igual?
II
Láquesis
O que mais quer esta moira é disfarçar-
-se de destino - palavra que só consta
do vocabulário dos tiranos e de quem,
já não vivendo, desiste e se retira.
Das três irmãs é a mais crua: alimenta-se
da carne exangue dos vencidos e com ela
abafa a revolta dos humanos. A ira que
persista, torna-se inofensiva e em cartaz
quase turístico. Vêm então os sacerdotes
ao templo e dizem, com voz doce de quem
trai, que o mundo desde sempre foi assim.
III
Átropo
De todas é a mais contraditória: se corta
o fio que Cloto doba, também cala os
desenganos de que Láquesis enche
a terra e o peito dos homens; se a ela
se devem os ossos brancos que emergem
da escuridão e dos navios afundados,
também o seu trabalho gera a sabedoria
do que foi vida - luta, riso, lágrimas.
E por ser assim contraditória, é a mais
generosa, pois é sabido que ninguém
se salva da hora em que o sol mergulha,
embora muitos pensem o contrário.
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