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Os coleccionadores de deuses
Não era já o medo que erguera
dólmens e vivia de bolota,
nem o desentendimento tosco
que acordava para a claridade,
mas a própria luz captada em
milénios de perguntas sem resposta
e que de olhar em olhar se tornou,
por gestos e palavras, em beleza,
na harmonia de sons e linhas
e do que a vida tinha e se evolava
da brevidade dos dias, e ainda
o que, sendo terra, todavia não
se alcançava ou por tibiez não
se podia: amor, prazer, domínio
ou o medo do que não se entendia,
Tártaro e Hades e todo o cortejo
de sombras projectadas por temor
da vida, que só como Heracles se
salvava ou, como Adónis em Afrodite,
imortal se bebia - de si mesmos
os criaram, múltiplos e tão inúmeros
quantas as imagens da ambição,
do desejo, da crueza, da tirania,
mas também do fogo de Prometeu
e da paz imensa de amar Psique,
e tudo o que da carne era espírito,
claro ou sedento ou alto ou vil,
o deixaram dito na vasta colecção
de deuses tão humanos que legaram.
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