Do Pagamento do Poeta

Alguma coisa triste pousou no meu coração
E agora se alimenta do meu olhar
Da minha solidão.

Alguma coisa triste que não sei bem o que
quer me silenciar
enquanto devora o meu viver.

Alguma coisa, Deus, alguma coisa
bica, corta, rasga, o meu corpo
e ainda cospe o podre fígado.

E esta dor de estar preso em correntes
a se debater, a gemer, e querer
o escuro, o silêncio, a paz de se esquecer.

E este cansaço, ou esta fúria
e nos poucos momentos de ternura
ver no céu o vôo da amargura

Alguma coisa criador e criatura
Serpente devorando a si mesma
me assassina, me ensina

Alguma coisa que chamo poesia
este fogo que queima nas minhas veias
e que Deus a queira, será a sua última ceia.