A lágrima de Neruda

Meus conterrâneos, eis minha missiva:
Estamos próximos do final do século
Às portas de uma nova era
Rogo, portanto, a paz
Não difiro de nada
Sou eu procedente do índio botocudo
De negros escravizados e de
Brancos degredados de Portugal
No peito um canto para Neftáli Reyes
Contra os que se devoram no dia e na noite
E a nossa dessemelhança
É o tiro que dizimou Balmaceda
Fomentando nossas hostilidades
Nosso suor ainda é vendido a preço vil
A preço de cadáveres indígenas, negros e marginalizados
As mulheres, nossas irmãs, são as mesmas
Nas favelas do Rio
Nas callampas do Chile
Nas jacabes do México
Nos barrios de Caracas
Nas barriadas de Lima
Nas vilas miséria de Buenos Aires
Nas catagrilles de Montevidéu
E uma bola de cartola ainda determina o rival
Nos gramados de Santiago do Chile
Meus conterrâneos, eis minhas palavras:
A esperança ainda é o nosso amuleto
Na estética de Huidobro: a precisão de um armistício
E de um sonho maior que o de Bolívar.

Luiz Alberto Machado