Mãe

Me deste a benção
Por deus me seguir
E eu louvado
Dedico o amor infinito das estrelas
Longe do teu seio
Não tenho mais vigor
Apenas o sentimento esconjurado
Eu te dedico a minha canção desatinada
Perdida nas matas do país
Sou de tua carne o fruto
O teu sacrifício
E a tua dor mulher
Foi no teu seio que me fiz feliz
Ensinou-se a justiça
A sede
E o ter na repartição da coragem no chão
Sou a vez do teu ventre
Na queda do rio incólume
Roço-te a pele e descubro dedicação
Proeza de criança espevitada
Mulher e homem é sim e não
Rigor da concepção amanhã
Os cacos de sonhos pela vida
Na paixão pela professora
Dedicada e prestimosa
As dores de fígado noite adentro
E o vômito surpreendente na sala de aula
O insulto da vó empunhando chicote
E o namoro inocente com a tia
Foi preciso a vida de trinta e tantos anos
Para sentir o desterro de Água Preta
A violenta decepção dos anos
O fumo logo cedo
As aprontações no Ginásio Municipal
As noites com vô em Badalejo
A solidão eterna dos canaviais
Foi preciso a vida para conhecer Batman
Os desenhos da televisão
A revolucionária Ana
A passiva Anginha
E o mimo exagerado de Geórgia
O dia não era um só nas coleções de gibís
No medo do Coração de Jesus
Na adoração fanática pelo pai
A fuga pro mundo se deu precoce
Na bolinha jogada no bairro
Na cantoria imaculada
No namoro escondido
No casório antecipado
Na fuga a acolhida de Carma
Sempre solícita
As safadezas de Pai Lula
E os desejos chegando muito cedo
Todos os mitos comigo
O cérebro e a cabeça
A ternura fria
A embriagues
O exílio
A separação
A lâmina
O adulto órfão
Ainda brotam desejos nas ilusões
A certeza incontida de vencer o mundo
E em alta velocidade
A penúria e o luxo disfarçado
A reprovação na escola
A pressa louca de conhecer o amanhã amanhã
Quando me vires abatumado pelos recantos dessa geografia do país

É que estou vigilante eterno da natureza
Quando me vires gritando pelas esquinas
É que sustento o choro no peito de milhares de filhos amaldiçoados
Quando me vires marchando nas ruas é que estou cantando o futuro
Quando me vires varando a noite é que não encontrei amparo no dia
Quando me vires a chorar é que ainda não fui feliz
Quando me vires rompendo divisas é que continuo a semear o melhor de ti lutando incansavelmente
Pelos caminhos duros do amanhã.

Luiz Alberto Machado