Legião

enquanto os dias e as noites se sucedem entre troca de olhares, rasgação de seda, bofetadas e homicídios.

uma constelação de seres sem memória, sem idade, sem identidade.

um cardume de gente sem respostas, sem questões, distantes de qualquer indício de certeza.

sem dúvida uma legião de apáticos, tipicamente clones de si mesmos.

uma robótica platéia com todos os seus estímulos dependentes da regência do maestro, eternamente manipuláveis.

enquanto isso do outro lado, a minoria tenta se abrigar entrincheirada nos escombros, que restam dos áureos tempos.

cultuando entre as ruínas da outrora terra prometida, onde um dia já se viu florescer um povo de verdade, livre em suas idéia, autônomo em suas leis, um povo dotado de mãos capazes.

a minoria se esgueira pelas sombras e se reúnem para celebrar o resultado após todas as batalhas, bebem e dançam como os antigos faziam no princípio, fiéis às suas tradições, não porque elas existam, mas pelo profundo conhecimento do que elas representam.

as videntes que perambulam pelos guetos, profeciam que a minoria resistirá e dividirá seu triunfo, diante dos olhos estarrecidos dos reacionários, que morrerão diante da imagem de ver seus domínios ocupados por toda a ralé.

ralé que se apossará de suas riquezas, comerá do seu mais tenro prato e se embriagará com o seu mais requintado vinho.

e a legião que nunca desperta, corre o sério risco de ficar à margem, de todos os efeitos de bem ou de mal, que a derradeira batalha possa trazer.

por não acreditarem em quem realmente são, nem no que poderão ser e nem no que poderiam ter sido.

e o rabino, na hora da extrema-unção, não citará "descansem em paz", porque eles nunca tiveram noção de ambas as coisas.

a sinfonia acabou, mas algo vem para dizer, que o último acorde não foi executado.

Luís Santana