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Auto-retrato Ilhado pelos acontecimentos, uns bons, outros ruins, coisas tolas que o vento leva e traz. O náufrago percebe um sinal ao longe, ao leste, embora comedido temendo a empolgação, acredita que poderá desta vez ser socorrido e ajudado a alcançar um melhor ponto de vista. Outros navios já passaram sem perceber a sua presença, sem notar o seu apelo, sem imaginar a sua aflição, sem se importar com o seu momento. Toda via , nunca será tarde para um acerto de contas, nem tão pouco para a realização de novas descobertas, ou para o nascimento de novos estímulos. Ele se lança a sua própria sorte, não há medo em seu olhar, há na verdade, entre outras coisas, um profundo respeito pelas coisas que ainda não conhece e o afeto por todos os seres que falam a sua língua, um idioma simples, porém pouco usado em decorrência de razões inúmeras. Durante o seu tempo de isolamento, o naufrago segue cultivando a sua fé na liberdade de proceder e reconhece a liberdade como a maior prova de amor entre os seres, acreditando que as ações projetadas sob o prisma de bons olhos certamente emolduram todo o bem da terra. Um dia, ao ser questionado por seu diário de bordo, se ainda desejava retornar ao continente. O naufrago que tenta sempre achar uma solução para quase tudo, ficou um longo tempo sem resposta e concluiu que a questão não é ficar ou abandonara a sua ilha, o que importa na verdade é dividir com alguém os frutos que o naufrágio e a ilha lhe deram. Apesar das fortes tempestades de dificuldades e frias rajadas de solidão, sorri interiormente e descaradamente, desdenha do perfil da sua sina e segue em frente chutando as pedras do caminho. Cinicamente, vai vingando-se da dor que ronda seus passos. E todas as manhãs, mentaliza a sua profana oração de resistência : " o humor é uma arma mortal, contra os ataques da intolerância, porque seu efeito é como a ação da Luz, aniquilando todas as sombras." Luís Santana |