|
Ave Maria
... à l'heure où joie nous quitte...
ASMIN
Ave, Maria... Era esta mesma a hora,
Este mesmo o lugar quando ela veio...
Quando perdi-me no amoroso enleio
Descia a noite como agora desce...
Ela os úmidos lábios entreabria
Para o céu, num sorriso, ou numa prece...
Ave, Maria!
Ave, Maria... Quanta vez às tardes
Viram-nos ambos num sonhar de doudos
Ao longe os montes se perdiam todos
Nos véus sombrios que além baixavam...
Minha alma à sua numa só se unia.
E os lábios dela e os lábios meus rezavam:
Ave, Maria!
Ave, Maria... Que formosa tarde
Era aquela da nossa despedida!
Era fatal partir, e foi cumprida
Minha sorte, que dela arrebatou-me!...
E a boca linda, que não mais sorria,
Na prece ardente murmurou meu nome...
Ave, Maria!
Ave, Maria... A hora ainda é a mesma.
Ainda o mesmo o lugar... mas já não vive
Aquele apaixonado amor que eu tive
E que tanto em saudade se revela...
Ela, a formosa desleal, mentia...
Vive, minh'alma, para orar por ela...
Ave, Maria!
(Canções de outono, 1896.)
Lúcio de Mendonça
|