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Epitáfio
Brincando com a vida,
Foi assim que eu vivi.
Do parto, senti as dores,
Quando me perde em amores.
Chorei.
Ah! eu chorei de alegria.
Fiz da solidão companhia,
Eu caí, mas levantei.
Sorri.
Ah! Como eu sorri sem querer.
E sem saber o que dizer,
De silêncio me vesti.
Andei.
Eu andei em desatino,
Por caminhos que nem sei...
Eu criei o meu destino.
Logo cedo despertei.
Já não importa se errei...
Corri.
Corri feito um jaguar.
Por um triz não me perdi.
Corri muito para amar.
Sentei,
Eu olhei o sol nascer.
Eu me vi no sol poente,
Levitou todo o meu ser.
Acolhi,
Acolhi todo um povo,
E me vi nascer de novo.
Quando lágrimas sequei.
Toquei,
Eu toquei em muitas almas,
Naveguei em águas calmas,
Tempestades enfrentei
Abracei,
Abracei o mundo inteiro,
Me fiz última, derradeira,
Mil sorrisos conquistei.
Abri mão,
Abri mão até de mim,
Quantas vezes desisti,
Não deixei ninguém sofrer.
Reeducar,
Sim eu quis reeducar,
E no mundo de reeducandas,
Fiz do zaP o meu lar.
Retirante,
Sim, eu fui uma retirante,
Viajei para distante.
Os meus sonhos fui buscar.
Eu vi anjos,
Anjo moreno e dourado,
Mas do meu próprio legado,
Vi nascer dois anjos mulher.
Imantada,
Sim, cheguei a ser imantada,
Por duas irmãs amadas,
O meu sangue, minhas glórias.
Minha família, minha história.
Eu fui pai?
Eu fui pai até de mim.
Quantas vezes me pedi,
Para não sobreviver.
Feito ilha,
Sim, eu fui feito uma ilha,
Não fui boa enquanto filha,
Em um canto me isolei.
Por minha mãe, saudades chorei.
Da nave mãe cedo, desembarquei.
Fui guerreira.
Fui guerreira, fui valente.
Rastejei feito serpente,
tentando sobreviver.
Quis voltar,
Quantas vezes quis voltar...
Na Bahia flutuar.
Minha Vitória da Conquista,
Minha terra, meu lugar.
Fui amante,
sei que fui.
Eu fui amante,
respiração ofegante.
Mil amores inventei.
Vi o mar,
Vi o mar por dentro e fora,
Eu fui peixe, fui aurora,
Boreal por sob o mar.
Fui gaivota a voar.
Eu subi,
o mais alto que eu pude,
Já nasci em altitude!
Alpinista, muitos picos escalei.
Leal,
Nossa, como fui leal.
Fui fiel, eu fui amiga.
Travei lutas contra o mal.
Companheira,
Sei que eu fui companheira,
Minha vida, corpo e alma,
Entreguei, quando amei.
Eu fui sol e clareei a lua.
Em uma tarde me fiz noite nua.
Eu ganhei um coração,
Do amor, fui legião.
Eu deitei,
Eu deitei para voar,
Adormecer, desencarnar,
Não deitei para morrer,
eu deitei pra renascer.
Eu vivi,
Feito fera eu vivi.
Não dei vida, não gerei.
Não há outra igual a mim.
São Paulo
sábado, 17 de abril de 2004, 1:40
Luciane Macário
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