Imaginação
Peguei nas flores murchas e pousei
o ramo emurchecido na janela,
olhei, no espelho, o rosto e murmurei:
- Bonita, aquela cor de beringela.
Vou vestir o meu fato dessa cor;
sair, apanhar sol, luz e calor.
Não reparei nas rugas que me sulcam
o rosto entristecido, sem fulgor;
vi-me quando era nova, e se desfrutam
os prazeres da vida, com ardor.
Encostei-me, em camisa, ao parapeito,
rememorando quanto tinha feito.
Olhei lá para fora e a paisagem
que vi era bonita; um resplendor
de campos, passarinhos ternurentos.
Não vi que era um saguão de tons cinzentos.
O meu pequeno quarto, pobrezinha!...
Pensei ser um castelo e eu rainha.
Quão breve foi a vida que tiveram
aquelas flores, secas, na janela.
Quão breves foram anos que me deram
de vida, que passou sem dar por ela.
Resta-me, ainda, a imaginação
que transforma, em jardim, este saguão.
11/07/2002
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