| Poema prosaico!
Não há motivo para um poema ser triste.
A tanta dor, tem gente que não resiste.
Vou declamar-lhes poesia mais animada;
de poetisa que julga ser engraçada.
Tenho platéia, amando tudo o que leio.
O gato escuta, enleva-se e eu receio
que os olhos fechem, adormeça, entediado;
nem ouça as palmas, da leitura, o resultado.
Também o cão, que da platéia faz parte,
põe o focinho no meu colo. Adora Arte!
Tal como o gato, acaba fechando os olhos;
enquanto eu leio, que a vida "é um mar de escolhos".
Mas, eu vinguei-me! Já comprei um gravador.
Ponho-lhe um fundo de aplausos; fica melhor.
Quero escutar a poesia declamada,
com a platéia aplaudindo, entusiasmada.
Páginas, páginas de poemário sem fim.
Caiu a linha. Computador ri de mim.
Escrever assim, foi coisa que nunca viu.
Estou às escuras porque a lâmpada fundiu.
À minha frente, tinha uma jarra com flores,
das verdadeiras, um conjunto de mil cores.
Está-me a parecer ... Preciso mudar a água
ou elas murcham, com o peso de tanta mágoa.
Meus bibelôs caíram; móvel abaixo.
Até a sopa deitou por fora do tacho.
Naquela árvore, um pássaro fez cara feia.
Isto é que é Arte! Sou poeta de mão cheia!
"O sino da minha terra"
- toque a finados
Hoje, o sino toca fora
das horas habituais.
Acostumei-me a ouvi-lo,
a traduzir seus sinais.
Alguém morreu. Ele toca
badaladas de seguida.
Tantas quantas tinha o morto
de aniversários de vida.
Hoje, ele toca bem triste ...
Tlim-tlão, tlim-tlão ...
Deixou de bater seguido
mais um triste coração.
Aos poucos foi-se acabando.
Ou seria de repente?
Enfim, deixou de bater
mais um coração de gente.
Na sacristia é velado,
à noite. Todos os seus,
familiares e amigos,
vem rezar junto com Deus.
De manhã, de novo toca
tlim-tlão. É toque de dores.
Cortejo p´ra o cemitério.
Enchem-lhe a campa de flores.
Agora, fala-se assim,
porque ele não está presente:
-Morreu? Que pena, coitado!
Era muito boa gente (...)
4/2001
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