Incumbido

- Fui incumbido...

Não ouvi o resto da frase. Não sei se isso acontece com você. De repente a gente se dá conta de uma palavra. Passa a vida ouvindo e lendo a palavra e um dia leva um susto com ela: que coisa estranha! Como é que eu nunca notei? Incumbido. Estava ali um incumbido. Ele acabara de falar e estava esperando uma reação minha.

- O quê?

Ele repetiu, pacientemente, que tinha sido incumbido... e me perdi de novo. Pensei em lhe perguntar se tinha doído. Em aconselhá-lo a denunciar quem o tinha incumbido. Há um incumbidor solto, a população precisa ser avisada! Pensei em tranquilizá-lo e dizer que não se notava. Acabei tentando incluí-lo no meu devaneio, para ele não pensar que eu era mal-educado. Ou louco.

- Palavra engraçada, né?

Ele hesitou.

- Qual?

- "Incumbido"

Ele ficou sério, interpretou como crítica. Eu o estava chamando de pedante. Propôs um sinônimo, mas com má vontade. Como um comerciante oferecendo um substituto mais barato para um produto que eu obviamente não sabia apreciar.

- Não, não. "Incumbido" está bom. É que... Pensando bem, "encarregado" também é engraçado. Todas as palavras com erre carregado são engraçadas. Como "erre". Ou "carregado"?

- Assim fica difícil - comentou ele, falando alto para ser ouvido acima do meu riso. Fiz o possível para me controlar.

- Você tem razão.
"Razão"! Que palavra! Um "ra" grande. Desta vez quase caí no chão de tanto rir. Ri tanto que não o vi se afastar.
Talvez ele tenha sido incumbido de me internar e volte com dois enfermeiros.
"Enfermeiros"! Que palavra engraçada!