Elegia VII

Dom Leonis Pereira sobre o livro
e Peão de Magalhães lhe of ereceu do
descobrimento da terra de Santa Cruz

Despois que Magalhães teve tecida
a breve história sua, que ilustrasse
a terra Santa Cruz, pouco sabida,
imaginando a quem a dedicasse,
ou com cujo favor defenderia seu livro,
de algum zoilo que ladrasse;
tendo nisto ocupada a fantasia,
lhe sobreveio um sono repousado,
antes que o Sol abrisse o claro dia.
Em sonhos lhe aparece, todo armado,
Marte, brandindo a lança furiosa,
com que fez, quem o viu, todo enfiado,
dizendo, em vez pesada e temerosa:
Não é justo que a outrem se ofereça
nenhüa obra que possa ser famosa,
senão a quem por armas resplandeça
no mundo todo com tal nome e fama
que louvor imortal sempre mereça.
Isto assi dito, Apolo, que da flama
celeste guia os carros, de outra parte
se lhe apresenta, e por seu nome o chama,
dizendo:-Magalhães, posto que Marte
com seu terror te espante, todavia
comigo deves só aconselhar-te.
Um Varão, sapiente, em quem Talia
pôs seus tesouros e eu minha ciência,
defender tuas obras poderia.
E justo que a escritura na prudência
ache só defensão, porque a dureza
das armas é contrária da eloquência.
Assi disse; e, tocando com destreza
a cítara dourada, começou
de mitigar de Marte a fortaleza.
Mas Mercúrio, que sempre costumou
a despartir porfias duvidosas,
co caduceu na mão, que sempre usou,
determina compor as perigosas
Opiniões aos deuses inimigos,
com razões boas, justas e amorosas;
e disse:-Bem sabemos dos antigos
heróis e dos modernos, que provaram
de Belona os gravíssimos perigos,
que também muitas vezes ajuntaram
às armas eloquência, porque as Musas
mil capitães na guerra acompanharam.
Nunca Alexandre ou César, nas confusas
guerras deixaram o estudo em breve espaço,
nem armas da ciência são escusas.
Nüa mão livros, noutra ferro e aço,
a üa rege e ensina, a outra fere;
mais co saber se vence que co braço.
Pois, logo, Varão grande, se requere,
que com teus dões, Apolo, ilustre seja,
e de ti, Marte, palma e glória espere.
Este vos darei eu, em quem se veja
saber e esforço no sereno peito,
que é Dom Leonis, que faz ao mundo enveja.
Deste as Irmãs em vendo o bom sujeito,
todas nove nos braços o tomaram,
criando-o co seu leite no seu leito.
As artes e ciência lhe ensinaram,
inclinação divina lhe influiram,
as virtudes morais, que o logo ornaram.
Daqui os exercícios o seguiram,
das armas no Oriente, onde primeiro
um soldado gentil instituiram.
Ali tais provas fez de cavaleiro,
que de cristão magnânimo e seguro,
a si mesmo venceu por derradeiro.
Despois, já capitão forte e maduro,
governando toda Áurea Quersoneso,
lhe defendeu co braço o débil muro;
porque vindo a cercá-la todo o peso
do poder dos Achéns, que se sustenta
do sangue alheio, em fúria todo aceso;
este só, que a ti, Marte, representa,
o castigou de sorte, que o vencido
de ter quem fique vivo se contenta.
Pois tanto que o grão Reino defendido
deixou segunda vez com maior glória,
para o ir governar foi elegido.
E não perdendo ainda da memória,
os amigos, 0 seu governo brando,
os imigos, o dano da vitória;
uns, com amor intrínseco, esperando
estão por ele, e os outros, congelados,
o vão, com temor frio, receando.
Pois vede se serão desbaratados
de todo por seu braço, se tornasse,
e dos mares da Índia degradados;
porque é justo que nunca lhe negasse
o conselho de Olimpo alto e subido
favor e ajuda, com que pelejasse.
Pois aqui certo está bem dirigido
de Magalhães o livro, este só deve
de ser de vós, ó deuses, escolhido.
isto Mercúrio disse, e logo em breve
se conformaram nisto Apolo e Marte,
e voou juntamente o sono leve.
Acorda Magalhães, e já se parte
a vos oferecer, Senhor famoso,
tudo o que nele pôs ciência e arte.
Tem claro estilo, engenho curioso
para poder de vós ser recebido,
com mão benina de animo amoroso.
Porque só de não ser favorecido
um claro esprito, fica baixo e escuro:
pois seja ele convosco defendido
como o foi de Malaca o fraco muro.