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O Urubu - Sena Freitas I Efficiam posthac no quemquam voce lacessas. Há injustiças e desmandos tão flagrantes, que carecem
de ser assoalhados perante a opinião com a linguagem castigadora do
doesto e do sarcasmo. Eu tenho reputação feita de escritor agressivo, de escritor virulento. Virulento, sou; agressivo, não. Das polêmicas que tenho ferido nem uma só foi provocada por mim: eu não sei atacar, eu só sei defender-me, eu só sei vingar-me. É grande, é vasta; mais ainda, é imensa, verdadeiramente, a minha indulgência para com a imbecilidade, para com a presunção parvoeirona do próximo; um palerma quer campar de sábio em minha presença, um pigmeu quer enaltecer-se a gigante, eu não lhe oponho embargos - seja sábio, seja gigante, à vontade. E até nem abro um sorriso sarcástico para verberar-lhe em silêncio a toleima: à força do exercício eu tenho conseguido domar-me até o ponto de ouvir com seriedade, impassível, os maiores despropósitos, as mais descabeladas sandices. Uma condição única imponho eu ao palerma, ao pigmeu pretensioso - não se há de entender comigo. Violada esta condição, invadidos meus domínios, atacada minha pessoa, o caso torna-se outro: eu arregaço-me, tomo o aziar, atiro-me à besta, agarro-a pelo cogote, comprimo-lhe a beiça, sujeito-a, cavalgo-a, faço-a virar à direita e à esquerda; depois, quando a vejo quebrada, mansa, de orelhas murchas, desmonto, e, com um pontapé amistoso, mando-a em paz às moscas do brejal. É o caso agora, é o que vou fazer, à besta que me agrediu ultimamente a coices e manotaços, e que, em punição, vai ser agarrada, embeiçada, enfreiada, encilhada, cavalgada, atagantada, cortada de esporas, escorchada de vez, é uma besta religiosa, é o padre Sena Freitas. Não lhe vou responder às críticas, vou simplesmente aguarentar-lhe a protérvia. Para se mostrar o que é uma comua, basta que se lhe projete um raio de luz na podridão negra do bojo; passo a acender uma lanterna, vou iluminar o padre Sena Freitas! Procul estole, estômagos delicados! uas palavras antes de começar - queixava-se o tonsurado pulha de que eu lhe tenha dispensado sobre posse considerações e respeitos. E ele tem razão: eu deitei essas pérolas a esse porco. Dinamômetro em que ensaiavam forças os garraios da imprensa portuguesa, alvo da verve implacável de Ramalho, assunto cenoso dos alexandrinos ferozes de Junqueiro, Sena Freitas, o clown litúrgico, o palhaço de batina, afeito ao gargalhar da plebe, aos apupos da garotada, abespinha-se com as minhas considerações, com os meus respeitos. Velho e sacerdote, ele não está acostumado a isso; desconhece considerações, ignora o que sejam respeitos... Estranha, nada mais natural. Se nas nossas conversações lhe tivesse eu arrumado com umas larachas desopilantes, com umas boas chalaças à moda da terra, à portuguesa velha, confiadas de mão a mão, de Zé pra Zé, isso sim, era com ele, era terreno conhecido. Fosse eu além, e em descomposta bexiga obsceno, nudato pene, o perseguisse, a ele Sena Freitas, como me dizem que ele Sena Freitas, obsceno, nudato pene, perseguiu e escandalizou a uns seus... a uns homens de respeito, aí no interior, melhor, muito melhor, perfeito: seríamos arcades nós ambos. Agora finezas de trato, respeitos e considerações, isso é que não: causam-lhe engulho, porque falta-lhe o vezo. Vou purgar o meu pecado: vou dar ao padre o que ele merece, vou mostrar ao público o que ele vale. Há de ser dissecado em troça festiva, e também seriamente. E não me venha cá com lamúrias, com queixumes: provocou-me, agüente-se. A minha questão não é de princípios, é pessoal; eu não defendo uma escolha, eu repilo um agressor, eu castigo um insolente. De uma coisa fique certo Sena Freitas - haja o escândalo que houver, desça a questão até onde seja possível descer; debata-se ela na imprensa, nos tribunais, na arena mesmo baixa do desforço material - EU HEI DE SER QUEM DIGA A ÚLTIMA PALAVRA, EU HEI DE SER QUEM VIBRE O ÚLTIMO GOLPE. Agora, ao sarraceno! S. Paulo, 11 de dezembro de 1888 II Camilo Castelo Branco é sem dúvida o primeiro polemista português: a um conhecimento profundo do coração humano junta ele um conhecimento não somenos da língua vernácula; um estilo adamantino; um humorismo cáustico, infernal; uma verve inexcedível, única. Terrível adversário! inestimável aliado! Tem um lado fraco: é afetivo, é sentimental, deixa-se vencer pelo coração. Irritado, diz o que diz de Silva Pinto, nas Noites de insônia: aplacam-no, e ele escreve o prefácio - palinódia dos Combates e críticas Conhecendo o ponto vulnerável do Aquiles das letras lusitanas, Sena Freitas, previdente, prático, hábil, entendeu que podia tirar dele proveito, e insidioso, felino, lá se foi a S. Miguel de Seide... Rojando como uma víbora, melifluindo como uma sereia, flexibilizando-se como um vime, o lazarista tudo concedeu, a tudo se amoldou: Camilo Sorria, ele gargalhava; Camilo ficava triste, ele desfazia-se em pranto; louvava sempre a Camilo, concordava com as opiniões dele, aceitava-lhe as teorias panteístas, justificava-lhe as descaídas... Tartufo! E venceu; abriu caminho até o grande coração do grande escritor, penetrou nele à força de concessões, tomou lugar, ganhou afetos, arrancou... aquele prólogo da Maria da Fonte, que é a mais eloqüente prova da injustiça bondosíssima da índole de Camilo. Por quê? para quê? É o que se vai ver. Troçado, apupado, perseguido como um cão de lata ao rabo, pelo jornalismo e até pelo clero português; dispondo apenas, não da amizade, mas da complacência do conde de Samodães e de outros clericalistas da velha rocha; atrevido e covarde, mas esperto ao mesmo tempo como um rato, Sena Freitas compreendera a necessidade em que estava de ter por amigo, por paraninfo, no mundo das letras, um escritor popular, um homem dedicado, um batalhador destemido. O cogumelo venenoso havia mister abrigo, procurava carvalho a cuja sombra vegetasse. Escolheu a Camilo e escolheu bem. Com credenciais de Camilo, com o prólogo da Maria da Fonte, ele podia se apresentar em toda a parte onde se falasse português. Em cata decerto de lastro para a bolsa, e mesmo impossibilitado de viver em Portugal, demandou ele, há poucos anos, esta terra cabralina, cujo falar vitupera, cujas instituições ridiculariza. Aqui chegado, atirou-se à prédica, atirou-se ao magistério, atirou-se à literatura, atirou-se a tudo... Dos sermões de Sena Freitas eu nada posso dizer: ainda estou virgem dessas estopadas em dialeto ininteligível, ainda o meu médico não prescreveu esses hipnóticos supremos para as insônias que me flagelam. Sobre o Colégio Sena Freitas fale outrem que não eu: fale, por exemplo, o sr. tenente-coronel Antônio Leme da Fonseca... A Sena Freitas escritor, individualidade literária, homem de ciência é que eu vou medir. Medi-lo-ei também como padre, como homem particular: agrediu-me sem motivo, trouxe para as colunas de um jornal pessoas de minha família, ofendeu-me mortalmente - há de pagar-me com língua de palmo. A suficiência que Sena Freitas se arroga, a segurança com que ele dogmatiza, a autoridade com que decide do mérito de indivíduos, cujos calcanhares não pode lamber, a protérvia com que agride a todos, a impertinência com que se procura impor, tudo isso de há muito irritava-me os nervos, azedava-me o ânimo. E, todavia, fiel ao meu sistema, eu me violentava, eu me continha. Por vezes quase que irrompia a indignação patriótica, quando eu via esse bonzo maroto conspurcar com deslealdade a gente que o acolhia... E eu ainda me continha, eu ainda cometia o crime de conter-me! E esse crime foi além, passou do silêncio, agravou-se: eu, eu próprio, cheguei a elogiar a sabença de Sena Freitas, cheguei a invocar Sena Freitas como autoridade! Proh pudor! Verdade é que a atenuar-me o remorso, a minorar-me o pejo, militam duas circunstâncias: eu de Sena Freitas só tinha lido até então a Autópsia da velhice e alguns artigos avulsos; eu tinha me deixado influenciar demais pelo prólogo de Camilo à Maria da Fonte... Só pude avaliar bem o novo Izidoro Mercator, o vendedor de bulas falsas, depois que ele me agrediu; só então é que eu foi ler o Morto imortal, o Perfil de Camilo, as Observações críticas. Do que, em rápida leitura, respiguei nesses acervos de português macerado e chirinolas científicas, vou dar conhecimento ao público. Começo. Calmamente, refletidamente, com a mão na consciência, eu digo - em matéria de conhecimento o Padre Sena Freitas é um pedante pretensiosíssimo que tem por forro um idiota. E se não veja-se: Sobre ciências apresenta como fresquinhas novidades que têm mais de um quarto de século. Diz asneiras monumentais, sandices pavorosas. A todo o momento faz citações falsas, deturpando, corrompendo o sentido dos autores. Ignora a disciplina gramatical: erra em sintaxe; erra em ptoseonomia; erra em ortografia. Arranja ecos medonhos; faz cacófatos obscenos; cai em tautologias pueris; desconhece absolutamente a significação de muitas palavras que emprega. Acostumados a endeusar Sena Freitas, que aliás não foi ainda discutido no Brasil, afeitos a considerá-lo, sob palavra, como o nec plus ultra do clero católico que fala português, os leitores estão pasmos do meu atrevimento: Provas! Provas! gritam-me de todos os lados. Vou dá-las e, se as não der que farte, convincentes, irrecusáveis, consinto em ser considerado como o mais baixo dos maldizentes, como o mais vil dos caluniadores. Primeiro, porém, seja-me permitida uma asserção: em talento, em saber, em virtude, em zelo, há no clero paulista muito padre-modesto infinitamente superior a Sena Freitas; ante quem Sena Freitas não é digno de prostrar-se para lhe desatar a correia dos sapatos. Isto posto, entro em matéria. Vou por partes, passo às provas. Proposição 1a O padre Sena freitas é fraquíssimo em disciplina gramatical ou, para falar mais claro, o padre Sena freitas desconhece o que seja disciplina gramatical. Prova Há bem pouco tempo, em uma questão que se ventilou no Diário Mercantil, querendo ele tratar do infinito pessoal, ou melhor flexional, saiu-se com a cerebrina tolice - infinito numeral! Pilhado em flagrante delito de asneira, e convenientemente rebatido, resmoneou umas desculpas chochas, sem ter a coragem, sem ter a hombridade de confessar que asneara! Proposição 2ª O padre Sena Freitas erra vergonhosamente em sintaxe. Prova 1ª) "A Carniça", artigo crítico publicado no Diário Mercantil de 27 de setembro de 1888: "Mas a questão de princípios deve prevalecer à questão pessoal, e a moralidade pública e a arte literária serem antepostas às preocupações de uma estima privada, embora muito sincera." Nesta sentença, em tudo e por tudo mal cerzida, há dois membros distintos: o primeiro termina com a palavra "pessoal"; o segundo consta do que se lê daí em diante até o fim. O verbo principal do primeiro membro, o verbo "deve", tem de ser forçosamente subentendido em forma própria, no segundo. Subentenda-se: "Mas a questão de princípios deve prevalecer à questão pessoal, e a moralidade pública, e a arte literária DEVEM SEREM antepostas às preocupações de uma estima privada, embora muito sincera." Força é confessar - "DEVEM SEREM" é asneira cabeluda, indigna de um menino de escola, credora de muita palmatoada. 2a Observações críticas, pág. 5: E pág. 5 ainda: E pág 179: E pág. 291: E ainda pág. 291: Sem remeter Sena freitas à minha gramática, onde vem preceito expresso sobre isto, aconselho-o a que leia o Microcosmo de 11 de março do corrente ano: aí Carlos de Laet firma que "O" antes de "que" interrogativo é erro de sintaxe, é corruptela vitanda. 3a O morto imortal, pág. 21: "Onde mais cintilam os seus prodigiosos recursos musculares de atleta... foi na redação do Univers." Onde cintilam... foi!! Se Sena freitas conhecesse a correlatividade dos tempos verbais escreveria: "Onde mais cintilaram os seus prodigiosos recursos musculares etc. foi na redação do Univers." (Uma polêmica célebre, 1934.)
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