O Urubu - Sena Freitas

I

Efficiam posthac no quemquam voce lacessas.
VIRGÍLIO.

Há injustiças e desmandos tão flagrantes, que carecem de ser assoalhados perante a opinião com a linguagem castigadora do doesto e do sarcasmo.
PADRE SENA FREITAS

Eu tenho reputação feita de escritor agressivo, de escritor virulento.

Virulento, sou; agressivo, não.

Das polêmicas que tenho ferido nem uma só foi provocada por mim: eu não sei atacar, eu só sei defender-me, eu só sei vingar-me.

É grande, é vasta; mais ainda, é imensa, verdadeiramente, a minha indulgência para com a imbecilidade, para com a presunção parvoeirona do próximo; um palerma quer campar de sábio em minha presença, um pigmeu quer enaltecer-se a gigante, eu não lhe oponho embargos - seja sábio, seja gigante, à vontade.

E até nem abro um sorriso sarcástico para verberar-lhe em silêncio a toleima: à força do exercício eu tenho conseguido domar-me até o ponto de ouvir com seriedade, impassível, os maiores despropósitos, as mais descabeladas sandices.

Uma condição única imponho eu ao palerma, ao pigmeu pretensioso - não se há de entender comigo.

Violada esta condição, invadidos meus domínios, atacada minha pessoa, o caso torna-se outro: eu arregaço-me, tomo o aziar, atiro-me à besta, agarro-a pelo cogote, comprimo-lhe a beiça, sujeito-a, cavalgo-a, faço-a virar à direita e à esquerda; depois, quando a vejo quebrada, mansa, de orelhas murchas, desmonto, e, com um pontapé amistoso, mando-a em paz às moscas do brejal.

É o caso agora, é o que vou fazer, à besta que me agrediu ultimamente a coices e manotaços, e que, em punição, vai ser agarrada, embeiçada, enfreiada, encilhada, cavalgada, atagantada, cortada de esporas, escorchada de vez, é uma besta religiosa, é o padre Sena Freitas.

Não lhe vou responder às críticas, vou simplesmente aguarentar-lhe a protérvia.

Para se mostrar o que é uma comua, basta que se lhe projete um raio de luz na podridão negra do bojo; passo a acender uma lanterna, vou iluminar o padre Sena Freitas!

Procul estole, estômagos delicados!

uas palavras antes de começar - queixava-se o tonsurado pulha de que eu lhe tenha dispensado sobre posse considerações e respeitos.

E ele tem razão: eu deitei essas pérolas a esse porco.

Dinamômetro em que ensaiavam forças os garraios da imprensa portuguesa, alvo da verve implacável de Ramalho, assunto cenoso dos alexandrinos ferozes de Junqueiro, Sena Freitas, o clown litúrgico, o palhaço de batina, afeito ao gargalhar da plebe, aos apupos da garotada, abespinha-se com as minhas considerações, com os meus respeitos.

Velho e sacerdote, ele não está acostumado a isso; desconhece considerações, ignora o que sejam respeitos...

Estranha, nada mais natural.

Se nas nossas conversações lhe tivesse eu arrumado com umas larachas desopilantes, com umas boas chalaças à moda da terra, à portuguesa velha, confiadas de mão a mão, de Zé pra Zé, isso sim, era com ele, era terreno conhecido.

Fosse eu além, e em descomposta bexiga obsceno, nudato pene, o perseguisse, a ele Sena Freitas, como me dizem que ele Sena Freitas, obsceno, nudato pene, perseguiu e escandalizou a uns seus... a uns homens de respeito, aí no interior, melhor, muito melhor, perfeito: seríamos arcades nós ambos.

Agora finezas de trato, respeitos e considerações, isso é que não: causam-lhe engulho, porque falta-lhe o vezo.

Vou purgar o meu pecado: vou dar ao padre o que ele merece, vou mostrar ao público o que ele vale.

Há de ser dissecado em troça festiva, e também seriamente.

E não me venha cá com lamúrias, com queixumes: provocou-me, agüente-se.

A minha questão não é de princípios, é pessoal; eu não defendo uma escolha, eu repilo um agressor, eu castigo um insolente.

De uma coisa fique certo Sena Freitas - haja o escândalo que houver, desça a questão até onde seja possível descer; debata-se ela na imprensa, nos tribunais, na arena mesmo baixa do desforço material - EU HEI DE SER QUEM DIGA A ÚLTIMA PALAVRA, EU HEI DE SER QUEM VIBRE O ÚLTIMO GOLPE.

Agora, ao sarraceno!

S. Paulo, 11 de dezembro de 1888

II

Camilo Castelo Branco é sem dúvida o primeiro polemista português: a um conhecimento profundo do coração humano junta ele um conhecimento não somenos da língua vernácula; um estilo adamantino; um humorismo cáustico, infernal; uma verve inexcedível, única.

Terrível adversário! inestimável aliado!

Tem um lado fraco: é afetivo, é sentimental, deixa-se vencer pelo coração.

Irritado, diz o que diz de Silva Pinto, nas Noites de insônia: aplacam-no, e ele escreve o prefácio - palinódia dos Combates e críticas

Conhecendo o ponto vulnerável do Aquiles das letras lusitanas, Sena Freitas, previdente, prático, hábil, entendeu que podia tirar dele proveito, e insidioso, felino, lá se foi a S. Miguel de Seide...

Rojando como uma víbora, melifluindo como uma sereia, flexibilizando-se como um vime, o lazarista tudo concedeu, a tudo se amoldou: Camilo Sorria, ele gargalhava; Camilo ficava triste, ele desfazia-se em pranto; louvava sempre a Camilo, concordava com as opiniões dele, aceitava-lhe as teorias panteístas, justificava-lhe as descaídas...

Tartufo!

E venceu; abriu caminho até o grande coração do grande escritor, penetrou nele à força de concessões, tomou lugar, ganhou afetos, arrancou... aquele prólogo da Maria da Fonte, que é a mais eloqüente prova da injustiça bondosíssima da índole de Camilo.

Por quê? para quê?

É o que se vai ver.

Troçado, apupado, perseguido como um cão de lata ao rabo, pelo jornalismo e até pelo clero português; dispondo apenas, não da amizade, mas da complacência do conde de Samodães e de outros clericalistas da velha rocha; atrevido e covarde, mas esperto ao mesmo tempo como um rato, Sena Freitas compreendera a necessidade em que estava de ter por amigo, por paraninfo, no mundo das letras, um escritor popular, um homem dedicado, um batalhador destemido.

O cogumelo venenoso havia mister abrigo, procurava carvalho a cuja sombra vegetasse.

Escolheu a Camilo e escolheu bem.

Com credenciais de Camilo, com o prólogo da Maria da Fonte, ele podia se apresentar em toda a parte onde se falasse português.

Em cata decerto de lastro para a bolsa, e mesmo impossibilitado de viver em Portugal, demandou ele, há poucos anos, esta terra cabralina, cujo falar vitupera, cujas instituições ridiculariza.

Aqui chegado, atirou-se à prédica, atirou-se ao magistério, atirou-se à literatura, atirou-se a tudo...

Dos sermões de Sena Freitas eu nada posso dizer: ainda estou virgem dessas estopadas em dialeto ininteligível, ainda o meu médico não prescreveu esses hipnóticos supremos para as insônias que me flagelam.

Sobre o Colégio Sena Freitas fale outrem que não eu: fale, por exemplo, o sr. tenente-coronel Antônio Leme da Fonseca...

A Sena Freitas escritor, individualidade literária, homem de ciência é que eu vou medir.

Medi-lo-ei também como padre, como homem particular: agrediu-me sem motivo, trouxe para as colunas de um jornal pessoas de minha família, ofendeu-me mortalmente - há de pagar-me com língua de palmo.

A suficiência que Sena Freitas se arroga, a segurança com que ele dogmatiza, a autoridade com que decide do mérito de indivíduos, cujos calcanhares não pode lamber, a protérvia com que agride a todos, a impertinência com que se procura impor, tudo isso de há muito irritava-me os nervos, azedava-me o ânimo.

E, todavia, fiel ao meu sistema, eu me violentava, eu me continha.

Por vezes quase que irrompia a indignação patriótica, quando eu via esse bonzo maroto conspurcar com deslealdade a gente que o acolhia...

E eu ainda me continha, eu ainda cometia o crime de conter-me!

E esse crime foi além, passou do silêncio, agravou-se: eu, eu próprio, cheguei a elogiar a sabença de Sena Freitas, cheguei a invocar Sena Freitas como autoridade!

Proh pudor!

Verdade é que a atenuar-me o remorso, a minorar-me o pejo, militam duas circunstâncias: eu de Sena Freitas só tinha lido até então a Autópsia da velhice e alguns artigos avulsos; eu tinha me deixado influenciar demais pelo prólogo de Camilo à Maria da Fonte...

Só pude avaliar bem o novo Izidoro Mercator, o vendedor de bulas falsas, depois que ele me agrediu; só então é que eu foi ler o Morto imortal, o Perfil de Camilo, as Observações críticas.

Do que, em rápida leitura, respiguei nesses acervos de português macerado e chirinolas científicas, vou dar conhecimento ao público.

Começo.

Calmamente, refletidamente, com a mão na consciência, eu digo - em matéria de conhecimento o Padre Sena Freitas é um pedante pretensiosíssimo que tem por forro um idiota.

E se não veja-se:

Sobre ciências apresenta como fresquinhas novidades que têm mais de um quarto de século. Diz asneiras monumentais, sandices pavorosas. A todo o momento faz citações falsas, deturpando, corrompendo o sentido dos autores. Ignora a disciplina gramatical: erra em sintaxe; erra em ptoseonomia; erra em ortografia. Arranja ecos medonhos; faz cacófatos obscenos; cai em tautologias pueris; desconhece absolutamente a significação de muitas palavras que emprega.

Acostumados a endeusar Sena Freitas, que aliás não foi ainda discutido no Brasil, afeitos a considerá-lo, sob palavra, como o nec plus ultra do clero católico que fala português, os leitores estão pasmos do meu atrevimento: Provas! Provas! gritam-me de todos os lados.

Vou dá-las e, se as não der que farte, convincentes, irrecusáveis, consinto em ser considerado como o mais baixo dos maldizentes, como o mais vil dos caluniadores.

Primeiro, porém, seja-me permitida uma asserção: em talento, em saber, em virtude, em zelo, há no clero paulista muito padre-modesto infinitamente superior a Sena Freitas; ante quem Sena Freitas não é digno de prostrar-se para lhe desatar a correia dos sapatos.

Isto posto, entro em matéria. Vou por partes, passo às provas.

Proposição 1a

O padre Sena freitas é fraquíssimo em disciplina gramatical ou, para falar mais claro, o padre Sena freitas desconhece o que seja disciplina gramatical.

Prova

Há bem pouco tempo, em uma questão que se ventilou no Diário Mercantil, querendo ele tratar do infinito pessoal, ou melhor flexional, saiu-se com a cerebrina tolice - infinito numeral!

Pilhado em flagrante delito de asneira, e convenientemente rebatido, resmoneou umas desculpas chochas, sem ter a coragem, sem ter a hombridade de confessar que asneara!

Proposição 2ª

O padre Sena Freitas erra vergonhosamente em sintaxe.

Prova

1ª) "A Carniça", artigo crítico publicado no Diário Mercantil de 27 de setembro de 1888:

"Mas a questão de princípios deve prevalecer à questão pessoal, e a moralidade pública e a arte literária serem antepostas às preocupações de uma estima privada, embora muito sincera."

Nesta sentença, em tudo e por tudo mal cerzida, há dois membros distintos: o primeiro termina com a palavra "pessoal"; o segundo consta do que se lê daí em diante até o fim. O verbo principal do primeiro membro, o verbo "deve", tem de ser forçosamente subentendido em forma própria, no segundo.

Subentenda-se:

"Mas a questão de princípios deve prevalecer à questão pessoal, e a moralidade pública, e a arte literária DEVEM SEREM antepostas às preocupações de uma estima privada, embora muito sincera."

Força é confessar - "DEVEM SEREM" é asneira cabeluda, indigna de um menino de escola, credora de muita palmatoada.

2a Observações críticas, pág. 5:
"O que é que tanto me aliciou na obra de Timon?"

E pág. 5 ainda:
"O que então?"

E pág 179:
"O que é um colégio?"

E pág. 291:
"O que é um materialista?"

E ainda pág. 291:
"O que é todavia que ele sustenta?"

Sem remeter Sena freitas à minha gramática, onde vem preceito expresso sobre isto, aconselho-o a que leia o Microcosmo de 11 de março do corrente ano: aí Carlos de Laet firma que "O" antes de "que" interrogativo é erro de sintaxe, é corruptela vitanda.

3a O morto imortal, pág. 21:

"Onde mais cintilam os seus prodigiosos recursos musculares de atleta... foi na redação do Univers."

Onde cintilam... foi!!

Se Sena freitas conhecesse a correlatividade dos tempos verbais escreveria:

"Onde mais cintilaram os seus prodigiosos recursos musculares etc. foi na redação do Univers."

(Uma polêmica célebre, 1934.)