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Semana política Estamos em plena aurora. Dentro em três dias via começar a história moderna do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros da nossa terra. Não é possível imaginar de um lance de pensamento o que será todo esse iluminado futuro, não obstante o presente fornecer-nos o esboço do que ele será nos largos traços dos acontecimentos que nos surpreendem. O que está por trás do dia 3 de maio não cabe na previsão dos políticos e não é demasiado otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos. As estrelas do sul dentro em um quarto de século não invejarão o fulgor da constelação do norte. Já podemos acentuar orgulhosamente um contraste. A maior revolução social da nossa terra está sendo feita entre bênçãos e flores. Nada mais extraordinário: bastaram o atrito da imprensa e o calor da palavra para limar e fundir os grilhões de três séculos de cativeiro. A alma nacional mostrou-se preparada em todas as camadas sociais para praticar e receber a liberdade. Em nenhuma outra história do mundo se encontram páginas como as que se têm escrito ultimamente em nossa terra. A esses fazendeiros pródigos que atiram pela janela fora a carne tarifada de seus cativos, carne que era a sua fortuna legal, porque esse gênero de valor no mercado da desumanidade antiga e da afronta à moral e à civilização, a esses fazendeiros que precedem a lei para afirmar que nunca em nossa pátria o interesse se colocará diante da justiça, a rebeldia diante da razão, correspondem os libertos que têm parecido acumular ódios de três séculos, demonstram que nunca souberam senão sofrer resignados, que não viram no seu martírio um crime de opressores, mas uma tremenda e inexplicável fatalidade; os libertos que devendo ter aprendido na escravidão a anarquia provam, ao contrário, que lá mesmo conservaram intactos o patriotismo e o amor da ordem e saem do cativeiro para cooperar na obra do bem- estar geral, tanto que se iniciam na vida cedendo em favor da produção uma parte dos direitos da sua liberdade: - o salário. Os povos que sinceramente se arreceiam de que os primeiros fenômenos resultantes da revolução social que se está operando sejam perturbações da ordem, abandono do trabalho, desassombrem os espíritos. Há de reproduzir-se em todo o Brasil o que se deu no Ceará. Em vez de guerra fratricida - paz patriarcal; em vez de estagnação da produção - aumento de riqueza e progresso. As epopéias de Itu e de Friburgo aí estão. Esses negros que atravessam povoações com a cabeça baixa, depois de um combate em que haviam revelado a coragem dos companheiros de Leônidas, e apesar de famintos, maltrapilhos e sangrando feridas do tiroteio e da luta corpo a corpo conduzindo crianças extenuadas não atacam a população aterrorizada, não abusam da sua força nem para satisfazer às mais urgentes necessidades da vida; esses outros negros que respondem aos senhores no dia da liberdade: descansai quanto à organização da nossa nova existência industrial - nós não queremos salário nos primeiros tempos; esses negros falam por uma raça, dão as endossantes da letra de amor à ordem e à probidade, que eles pretendem descontar no regímen da liberdade e da igualdade nacional. O que há de mais admirável na nova fase de nossa vida de povo civilizado é a uniformidade de pensamento, desde o governo até o último liberto. O ministério restaura a segurança pública em todas as manifestações. O Presidente do Conselho garante a fortuna do país, esforçando-se para restituir à moeda, representação do trabalho, o seu valor exato na cotação universal. Bate-se como um duelista tão inimigo da luta, como terrível no combate e em menos de um mês de administração derrota a horda dos especuladores de câmbio. Este glorioso trabalho de valor inestimável é feito sem estrépito, com a modéstia do dever cumprido. O empréstimo foi o mais solene desmentido ao escravismo, que nos dava como único título descredito europeu o sermos o último país, cuja fortuna se baseava no tráfico das almas, no roubo do trabalho. O Ministro da Fazenda provou que o país podia comparecer perante o mercado do ouro levando como valores a hipotecar a sabedoria de seu procedimento, resolvendo sem perturbação da ordem o mais temeroso dos problemas e a certeza de que este país foi dotado pela natureza de tesouros que nem mil séculos de prodigalidade poderão dissipar. O Ministro da Justiça garante a liberdade do cidadão com a letra cega da lei e com a lucidez humanitária do seu espírito. Quebra-lhe o punhal da vingança para dar-lhe a balança das reparações e da correção. Põe o código à cabeceira de cada cidadão por mais humilde que ele seja; todos podem dormir tranqüilos dentro de seus limites legais. A autoridade perdeu a carrança de Medusa com que petrificava o Direito. Ela não pode mais espalhar caprichosamente pânico e lágrimas, violências e calúnias. E porque veio da imprensa e porque veio da desilusão popular um ministro extraordinário, compreendendo que para pregar a boa nova de regeneração governamental é preciso, como Jesus, freqüentar as multidões, dar vinho às suas bodas, distribuir com as próprias mãos pão e peixe aos famintos, parar junto das sepulturas para ressuscitar os mortos; esse ministro está em todas as festas para que é convidado, distribuindo o vinho generoso, o cordial de sua palavra, que é banho de nardo no corpo do mendigo e agno do Cenáculo ao espírito das crianças. O Ministro da Guerra faz recolher a quartéis o Exército, que se viu obrigado a vir à praça pública reclamar como cidadão o que o seu patriotismo lhe impediu que exigisse como soldado: o respeito pelo seu brio e pelo seu direito. Certo de que está salvando a pátria e de que ela bem merece o sacrifício de conveniências efêmeras, o Ministro enche a fé de ofício dos heróis com as repetidas provas de confiança do governo; faz-se no poder o órgão da opinião que cercou com o seu prestígio os perseguidos da véspera. O que será este país amanhã, quando o que hoje surpreende for a norma de procedimento dos governos e do povo? Quando extinta a recordação do cativeiro, cada cidadão entender que ele é tanto maior quanto mais respeitar no direto de outrem o seu direto e o direito de todos? Temos o olhar alongado sobre esse amanhã que vem rápido, vertiginosamente e que, entretanto, afigura-se à nossa ansiedade lento como o desdobrar de um século. Bate-nos novamente o coração, perguntando-nos no pensamento se é com efeito verdade que dentro em poucos dias uma senhora vai comparecer perante a assembléia de um povo não para impor, mas para pedir e conquistar, como a tímida Ester, piedade para os milhares de desgraçados, os filhos de uma raça que foi degradada por haver contribuído tanto como qualquer outra para a grandeza de sua pátria. Sabemos que a promessa de homens de bem é a antecipação da realidade, e entretanto temos ainda essa incredulidade fugitiva que nos provoca o bem muito maior do que esperávamos. E por isso mesmo perdoamos aos que não acreditam de todo, aos que julgam que amanhã havemos de chorar de despeito. Não há negá-lo: a corrupção havia minado tanto o país, que é quase impossível acreditar que se conservasse intacta uma porção do caráter completamente refratário ao contágio. Demais, é melhor não esperar muito, para morrer de alegria recebendo tudo. (Apud Páginas escolhidas, por João Ribeiro, tomo primeiro, pág. 483, Rio, 1906.) |