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A Bruno Tolentino
De apor barrete luso ao fero Dante
Andei cansado, que era dura a estrada.
Nem me valeu, modesto itinerante,
Tamanha pena repouso e pousada.
Pensei até que florentino Guante
Pesava mais que a Rosa imaculada,
Que dava azar, o narrador flamante,
Virtude negra da cara amarrada.
Mas refrigérios mil achei constantes
No encontro novo com as já encontradas
Figuras que são outras, mas são Dante,
E já na porta grave anunciadas.
"Aqui sou Tudo", a porta altissonante
Afirma sem conter a indisfarçada
Presença do Toscano em seu rompante.
"E eu também", a pantera e a desvairada
Loba repetem: - não são figurantes,
Mas sim que uma vez mais são combinadas
Formas de dar na mesma resultante
Sombra sinistra que esperamos: - Dante!
Ah, que com ele estava começada
A narratividade! E ele, ignorante
Narrava sem saber que a eternidade
Teorias do narrar e penetrantes
Caminhos da ficção mais caprichada
Podia nele ver, séculos antes
Da teorização ser consagrada.
Envoi
Assim, na calma ardente da leitura,
Leio o múltiplo estar da criatura
Na vigem dantesca e principesca
que é feita de sombrio e de paúra.
Volto ao trabalho e se falta água fresca
Já me refresco com Paulo e Francesca
E vai-me a estrada agora menos dura.
Jorge Wanderlei
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