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Olinda, o mar de Olinda: 4 poemas
1
Os dóceis cajueiros de Olinda
fazem uma mesura ao mar
Desprezam as casinholas tímidas
que se solidarizam no último estertor
antes de se dividirem em peixes de tijolo.
Banho-me na argila do mar
e douro cajus, antes da noite.
Longe e no alto, os frades comem biscoitos
e o mar promete alçar-se até eles.
- Venha - respondem os frades
e fazem, como os cajueiros,
uma mesura descuidada
2
É noite no mar negro de Olinda,
o mar de Olinda que devora cajueiros.
Minha casa está na barriga do mar,
do mar de Olinda, que come tudo.
Do alto do Mosteiro de São Bento
o mar é uma pincelada complementar
para a inocência dos coqueiros franciscanos.
Do alto do Mosteiro de São Bento
o mar não ameaça nada.
De manhã nos domingos intermináveis de Olinda
os frades tomam café em silêncio.
O dia nasce da tonsura deles
e banha o mar, que se vê
repetindo a mesma fé.
O mar de Olinda, que fala da morte
e beija meu pé.
3
Nos domingos intermináveis de Olinda
o verde se desata ao pé dos monges
e igrejas bocejam.
Nos domingos intermináveis de Olinda
ouve-se o mar impessoal comendo
as raízes de velhas casas assustadas.
Há uma leve predominância
de circunstâncias inúteis, nos domingos
amarelos, intermináveis, de Olinda.
Há calor ao lado dos gritos
dos cajueiros secos, debruçados,
que deixam passar, reverentes,
os domingos intermináveis de Olinda.
4
Habito o mar e o verde se desata
ao meu passar desassombrado:
bebo de conchas, respiro de espumas
as siderais ventanias.
Aceito amável meu final marinhop
e preparo de sargaços
gravata e colarinho:
a casa, como uma donzela,
vai se entregando aos pedaços.
Os jornais clamam por ela.
As vizinhas se estremecem.
Em seu amor medieval,
lançada a ponte se deitam
a casa, o mar, vendaval.
O mar, engrenagem com ritmo,
vai discursando solene
sobre os portais coloridos.
Cordeiro de minha casa frente à fera
habito tijolos vencidos
e como a casa, à espera
vou amaciando o ouvido.
Jorge Wanderlei
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