Centenário de Borges

Farias hoje cem anos
-talvez na Suíça,
na antiga Nortúmbria,
ou naquela Espanha
inicial -
tu,
adjetival.

O rouxinol
do "sucessivo e arrebatado Keats"
celebraria em suas penas, uma, especial, por ti,
adicional.
Tu,
casual.

Por todas as línguas de Espanha
- tua Espanha "incessante e fatal" -
reinarias com cetro e bengala,
vencidos labirintos e punhal.

No perturbado mundo que gira sem centro,
serias a representação melhor do Golem,
teu descendente,
teu ancestral.

De amarelos crescentes, tua sombra
de erguida resignação traria igual
lembrança do passado e do futuro
no espelho conjugal.

Dirias "Não me façais poemas,
vós cidadãos pelo demais decentes,
em hora banal".
E dirias que elas todas correm como qualquer outra
e cada uma é final.

Tomarias bastão,
mais chaveiro e teu graal
para negar conosco sua valia e divindade
em teu amor paradoxal.

Por tudo e por trás, Buenos Aires,
porém, - e cabal.
Como se nada passasse além dela,
E toda notícia e tédio
Falassem de seu jornal.

Que é também Nortúmbria espessa,
espessa para jamais,
a de uma saga que o mar ambiciona,
saga do verso que à luz da sentido
e é o corte no sal.

Mas agora, na outra parte
talvez te sintas chegado.
Com tua lei natural
o encontro de um rosto igual
Ao que tiveste, plural,

puro, alteado, distante,

tu centenário
e local.

Jorge Wanderlei