A Missa do galo

Repica o sino da aldeia,
Troa o foguete no ar!
O rio geme na areia,
Na areia brilha o luar.
Quantas vozes, que alegria!
O povo da freguesia
Corre em chusma, folgazão.
No caminho arcos de flores,
Por toda parte cantores,
Folguedos e agitação!
Ali no largo da ermida
O tambor toca festeiro,
Se apinha o povo em redor;
E a igrejinha garrida,
Tendo defronte um cruzeiro,
É toda luz e fulgor!
Vêm do monte umas devotas,
Trazem o rosário na mão;
Uns camponeses janotas,
Calças por dentro das botas,
Seguindo o grupo lá vão!
Que raparigas formosas,
Cheias de rendas e rosas
A ladeira vão subir!
Falam cousas tão suaves,
Parece gorjeio de aves
O que elas dizem a sorrir!
A brisa sopra fagueira,
Brincando na juçareira
E vai o rio enrugar;
Chegam de longe canoas,
Os barqueiros cessam as loas,
Que modulavam a remar!
O sino da freguesia,
Da branca igreja da aldeia,
Cada vez repica mais;
O povo corre à porfia,
A capela já está cheia,
Soam trenos festivais!
Porque produz tanto abalo
Esta festa sem rival?
É hoje a missa do galo,
Santa missa do Natal!

Este festejo tão lindo
Que grande mistério encerra!
Poema de amor infindo
Que o céu ensinou à terra!
Faz-se humano o ente divino,
O Eterno se faz menino,
Vem viver entre os mortais!
Lei cristã, santa e formosa,
Salve crença majestosa,
Que eu recebi de meus pais!

(Quadros, 1873)

A minha madona
Alva, mais alva do que o branco cisne,
Que além mergulha e a penugem lava;
Alva como um vestido de noivado,
Mais alva, inda mais alva!
Loira, mais loira do que a nuvem linda
Que o sol à tarde no poente doira;
Loira como uma virgem ossianesca,
Mais loira, inda mais loira!
Bela, mais bela que o raiar da aurora
Após noite hibernal, negra procela;
Bela como a açucena rociada
Mais bela, inda mais bela!
Doce, mais doce que o gemer da brisa;
Como se deste mundo ela não fosse...
Doce como os cantares dos arcanjos,
Mais doce, inda mais doce!
Casta, mais casta que a mimosa folha
Que se constringe, que da mão se afasta,
Assim como a Madona imaculada
Ela era assim tão casta!...

(Quadros, 1873)