'Não sou um etc.'

Paulo Celso Pereira
Especial para o JB

O baiano João Ubaldo Ribeiro não é só um bom escritor, é também um ótimo papo. Caseiro, escolheu dar esta entrevista no Tio Sam, bar que fica em frente à sua casa, no Leblon. Lá ele tem até um copo com seu nome, no qual há três anos só entra guaraná. ''Já bebi tudo o que tinha que ter bebido.'' Aos 63 anos, João Ubaldo está lançando Você me mata, mãe gentil (Nova Fronteira), que reúne crônicas sobre a política nacional, em geral com um tom desiludido. Na última semana, o autor desistiu de participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde debateria ao lado dos escritores Moacir Scliar e Lygia Fagundes Telles no próximo dia 10. O motivo seria o fato, segundo ele, de a divulgação estar favorecendo os escritores da Companhia das Letras, o que é negado pela organização do festival.

- Como aconteceu essa decisão de não participar da Flip?

- A decisão veio gradualmente. É complicado explicar isso, porque parece que estou tomando uma atitude ditada pela vaidade, mas não é isso. Esse evento é organizado basicamente pelo pessoal da Companhia das Letras, que é uma editora respeitável, contra a qual eu não tenho nada. Eu fui convidado e não ia, pois tenho de entregar o romance, que já está atrasado, mas acabei sendo convencido a ir pelo pessoal da minha editora. Mas, quando a divulgação da Flip começou a ser feita, muitas vezes não vi meu nome mencionado entre os escritores que iam participar. Depois eu apareci em algumas citações na condição de etc. Ou seja, fulano, fulano, fulano etc. Após 40 anos sendo publicado e traduzido em cerca de 15 ou 16 países, com uma certa bagagem literária, eu me tornei conhecido. Achei esquisito que os escritores divulgados fossem basicamente os da Companhia das Letras. A organização tratou o evento como se ele fosse da editora, apesar de não reconhecer isso. Então achei que se eu não me respeito, se não me valorizo, quem é que vai me respeitar e me valorizar? Se eles não acharam que eu fosse merecedor de divulgação, achei que eles não precisavam de mim. Já conquistei a posição, acredito, de não-etc. Não sou etc. nem em enciclopédia americana, onde apareço no sub-verbete de literatura brasileira. Não vou ser etc. em minha terra, onde sou um dos escritores mais conhecidos. Abandonei, mas sem briga. Não estou protestando. Quero sucesso pra eles. Mas não há chance de voltar atrás.

- Está havendo supervalorização dos autores e artistas estrangeiros no Brasil?

- É evidente que aqui se valoriza mais a cultura estrangeira. Isso acontece em todas as artes. Tom Jobim tinha um pouco de razão quando um dia, conversando comigo, disse: ''Ubaldo, a população ficaria contentíssima conosco se nós saíssemos de porre daqui do Bracarense (bar do Leblon) e caíssemos na sarjeta. Aí nos pegavam, levavam para o Hospital Miguel Couto e faziam um show beneficente para a gente. Eles iam nos adorar, nós numa merda federal, mas grandes artistas''. O povo prefere Garrincha a Pelé. Eu mesmo sou até meio garrinchista, porque gostava mais de ver a alegria de Garrincha jogar do que o brilho inexcedível de Pelé. Mas Maradona na Argentina é deus e aqui Pelé não é deus coisa nenhuma. Pelé já sofreu o diabo em matéria de ataque. Jorge Amado, que durante muito tempo foi praticamente o único escritor brasileiro com penetração no exterior, sofreu o diabo aqui no Brasil. Glauber Rocha sofreu também. Eu o vi às portas da morte, na Europa, teimando em não voltar para o Brasil. E era o próprio Tom quem dizia a célebre frase: ''Sucesso no Brasil é agressão pessoal''.

- Nas crônicas de seu novo livro, o tema principal é a crítica à política nacional. Está desiludido com o país?

- Estou. Eu sempre me lembro de Antonio Callado, que quando já estava doente, uma vez me falou: ''Antigamente eu acreditava que para os meus netos este seria um grande país. Hoje não acredito nisso nem para os meus bisnetos, não acredito mais, perdi a esperança''. Não estou doente, nem tenho a idade que Callado tinha na época que falou isso, mas me sinto de maneira semelhante. Não posso dizer que perdi as esperanças, porque perder a esperança é morrer. Não se pode viver sem alguma esperança, por mais reprimida, débil ou tíbia que ela seja. Do contrário, o homem vira um ente abúlico. Mas eu estou desesperançado, não só do Brasil, mas do mundo, da humanidade. Não sei pra que tipo de futuro nós estamos caminhando. A humanidade continua se matando irracionalmente, somos uma espécie primitiva. A conjuntura local não tem melhorado. O governo, me parece, tem decepcionado a maior parte daqueles que o levaram ao poder. A maior parte dos brasileiros não está feliz com a aparente apatia desse governo, seu aparente imobilismo e incapacidade de mexer em qualquer coisa. Tenho dado opiniões bastante negativas sobre o governo, embora não goste disso. Já se passaram dois anos e não estamos vendo muita coisa. O PT já não é o mesmo. Eu realmente tenho pouca esperança. Pouca esperança na espécie humana. Nós teremos pouco tempo de sobrevivência se continuarmos fazendo o que estamos fazendo. Então, às vezes, penso: será que eu agi bem em ter deixado descendência? O que é que meus filhos vão herdar? O que meus netos vão herdar? A onipresença do Estado está começando a se impor pelo medo do terrorismo, e aí se sacrifica a liberdade e a privacidade em nome da segurança. Os homens continuam a se matar uns aos outros, por causa de dinheiro, ou porque um come carne de porco e o outro não. Ou porque um fala uma língua que o outro considera desprezível. Esta é uma espécie primitiva, capaz de criações sublimes e, ao mesmo tempo, de barbáries inimagináveis.

- Seu próximo romance refletirá isso?

- Estou atrasado praticamente dois anos, mas, se eu tivesse escrito dentro do prazo prometido, talvez fosse um livro bem mais amargurado do que o que vai sair. Talvez agora eu escreva um livro alegre, mas que poderá ser acusado de escapista ou até alienado. E eu acho que não vou me aborrecer muito com isso. Talvez até seja uma viagem, um pouco nostálgica e escapista mesmo, alguma coisa como se existisse ainda um mundo alegre, vistoso, cheio de esperança, cheio de humanidade, com todos os seus defeitos e virtudes também. Enfim, um mundo fora de moda, que não é o nosso, e que talvez só exista no meu microcosmo imaginário, que tem por base minha terra, Itaparica, a ilha onde nasci. Porque há muito tempo abdiquei desse sentido missionário do meu trabalho, da idéia de mudar o mundo com os meus livros. Mas não tenho mais o que adiantar do meu romance, pois agora resolvi seguir o conselho do meu grande amigo Zé Rubem Fonseca, que, apesar de ser adorável, é muito reservado. Ele sempre me recrimina por ficar contando sobre o meu livro. E tenho tido experiências que mostram que ele tem certa razão.

'Virei historiador, povista, brasilianista'

- Sua literatura fala basicamente do Brasil. Dá para explicar o que vem acontecendo no país?

- Não dá para explicar. Nem usando minha condição de ex-cientista social sou capaz de fazer uma síntese. Aliás, nunca parti para fazer síntese nenhuma desse tipo. Escrevi Viva o povo brasileiro com a intenção de fazer um romance. No entanto, muita gente da crítica fala do livro como se fosse uma tentativa de síntese da realidade nacional. Nada disso. Eu apenas fiz um romance grande, que tem uma duração de três séculos. Não quis recontar a história do Brasil. Se isso aconteceu, foi por acaso. Não quis proporcionar uma identidade ao Brasil. Muitas vezes sou questionado a respeito das colocações que eu faço, mas não faço colocação nenhuma. Não é uma tese, é um romance. Eu não quis contar a história do Brasil do ponto de vista do oprimido. Complicaram tudo. Eu virei negrista, camdomblesista, velejador, historiador, povista, brasilianista. Do mesmo jeito que virei sexólogo porque escrevi A casa dos budas ditosos. Aliás, sou entendidíssimo no assunto (ironiza).

- Mas o Brasil é realmente o eixo de toda a sua obra?

- Eu vou dizer dois lugares-comuns que se aplicam perfeitamente a esse caso. Primeiro, o autor não escolhe a obra, o romance é que escolhe o autor. Segundo, no fundo, os autores estão escrevendo sempre o mesmo livro. Não sei se é verdade isso, ou parcialmente verdadeiro, mas o fato é que eu não escolhi falar sobre o Brasil. Eu não parti para ter um determinado tipo de literatura. Houve um tempo, na minha juventude, que, por natural ingenuidade, eu achava que ia mudar o mundo com os meus livros. Com 63 anos, seria um bobalhão se continuasse a pensar assim.

- Entre os novos escritores alguém o surpreende?

- Eu não acompanho muito o movimento literário. Quanto mais velho fico, mais leio os mesmos livros, e às vezes os mesmos pedaços dos mesmos livros. Porque acho que tenho que aprender. Quando era jovem, gostava de brincar de copidescar mentalmente vários autores clássicos. Mudando aqui e ali. O que evidentemente seria uma coisa desastrosa se fizesse isso a sério, mas em alguns casos até colaria. Acabei conseguindo copidescar quase todo mundo, exceto Shakespeare. Então, cada vez mais eu leio os clássicos, como a Ilíada, que já li umas 20 vezes, e estou sentindo falta, vou ler de novo. Imitando Lula, vou fazer uma analogia futebolística: já tive fases em que fui suficientemente débil mental para brigar com um amigo por causa de futebol, fui suficientemente cretino para estragar uma semana, um mês ou até um ano por futebol. Hoje, continuo torcedor, mas não tenho mais fanatismo nenhum, gosto de ver bola bem jogada. Então, faço isso com literatura. Gosto de ver bola e geralmente vejo bola em certos trechos de obras. Há lances que nunca me cansam. Ler Hamlet, a Ilíada e Jorge de Lima nunca me cansa. Gosto, por exemplo, de pegar um sermão de Padre Antônio Vieira só para ver o craque em ação.

- Por que o novo romance está atrasado?

- Assédio de gente. Toda hora tem alguma coisa. ''É só uma frasezinha para a sua amiga que está posando nua. O que custa isso pra você?'' Mas levo o mês inteiro para bolar uma frase que diga que os pentelhos de alguma amiga são bonitos numa revista. Tenho que ser original, criativo e não se cria uma frase facilmente. Também acontecem pedidos assim: ''O que é que são só 15 linhas? É a escola de não sei onde, de crianças pobres que ficariam muito agradecidas''. E, se interrompo um dia o livro, às vezes levo uma semana para retomar. E às vezes, quando retomo, o livro já desandou, e tenho que pegar do começo. Enfim, é um trabalho complicado. Tenho que ser rigoroso. Se digo que não atendo, não vou atender. Nem mamãe!