A festa de N. S. dos Remédios

A festa chamada dos Remédios é a mais popular desta boa cidade de São Luís, quero dizer, é a festa a que concorre maior porção de povo de todas as classes e condições, e a que, na variedade das distrações que proporciona, deixa mais satisfeitos os concorrentes. Em qualquer tempo merecia ser descrita e narrada em algum dos nossos jornais, com que lá por fora e mesmo cá por dentro se ficassem conhecendo e avaliando, em parte ao menos, os nossos costumes e cenas de província; este ano, porém, muito mais, por uma agradável inovação introduzida, a qual é de esperar que nos anos futuros se reproduza e aperfeiçoe, em proveito das belas-artes, e para satisfação deste pobre respeitável público, que vegeta em tamanha e tão rigorosa dieta de tudo quanto pode alimentar e deleitar o espírito, os ouvidos, os olhos, e todas as mais faculdades e sentidos da alma e do corpo.

Eu, pois, Timon, vencendo por um pouco a feroz misantropia de que me acusam, verei se faço o que outros não têm feito, e no entanto da mesma via desmentirei a abominável calúnia de que sou vítima, narrando o mais agradavelmente que puder, o que tão agradavelmente presenciei e gozei.

Já um mês ou mais antes do dia da milagrosa senhora, começa a azáfama da sua festa; as belas e os elegantes perdem o sono, imaginando nos meios de melhor ataviar-se. Que receios, sobressaltos e angústias nesta amável classe de consumidores, e sobretudo na classe embezerrada dos fornecedores, pela só demora de alguns dias na chegada dos navios que trazem no seu bojo os chapéus, as luvas, os vestidos, as quinzenas, as cassas, as sedas, as plumas, as rendas, as fitas, as flores, as pomadas, os cheiros, e todos os mais gêneros enfim que dão vida e saúde às lojas, e entisicam as algibeiras dos fregueses! Como discorrem em todos os sentidos pelas ruas e travessas, como invadem todas as lojas, as pretas, as cafuzas, as mulatas, sobraçando peças, livros de amostras, e caixas e mais caixas de dourado papelão, com que vão incessantes de um lado para outro, sem conseguirem satisfazer o gosto esquisito ou requintado das caprichosas senhoritas, a quem a emulação e a competência tornam mais difíceis e impertinentes! Os sapateiros, alfaiates, costureiras, e modistas não têm mãos a medir; e a urgente e pesada tarefa abrange ordinariamente todo o curso das novenas, e só expira com o último dia da festa. O leitor sisudo e imparcial, mormente o que tem família, terá sem dúvida e por muitas vezes feito sérias reflexões sobre esta deliciosa calamidade, e sobre as suas imediatas conseqüências em relação à economia pública e privada.

Devo, porém, declarar que no meio do geral bulício só Mr. Ory não tem sido muito incomodado; e se o assevero com tanta segurança é porque tenho estado em uma posição vantajosa para observá-lo.

Aviados ou não os preparativos, no dia aprazado começam as novenas, anunciadas a girândola de foguetes, ao estouro das bombas, a toque de zabumba, e a repique de sinos, ao meio-dia em ponto na ermida da milagrosa virgem. É de notar que no Maranhão as festas públicas, quer religiosas, quer civis ou políticas, parece que nada valem sem foguetes, sinos, zabumbas, bandeiras, e ariris, acessório obrigado de quase todas elas.

Todo o fiel católico romano sabe perfeitamente o que são novenas, e mais o nome pelo menos está indicando que são atos religiosos que se repetem nove vezes. Porém as dos Remédios têm esta particularidade, que se dividem em duas partes, a externa e a interna.

Eis a externa. O povo, sem distinção de classe e condições, aflui logo ao anoitecer de todos os pontos da cidade, e ocupa promiscuamente o largo dos Remédios, uns de pé, outros sentados em bancos e cadeiras, uns parados, outros passeando, aqueles fumando, estes devorando doces, estoutros simplesmente conversando, e alguns até engolfados em silenciosa e gozosa meditação. Cada um vestido segundo o seu capricho. E a todos a lua ilumina, o vento refresca, e a poeira incomoda sofrivelmente. Reina por toda a parte o prazer e a cordialidade, e é quase geral a efusão dos bons sentimentos.

Pelo que toca à manducação, há anos a esta parte têm os costumes sofrido uma bem sensível alteração. Dantes se improvisavam no largo doze ou mais barracas, com toldos de lona, em que os amigos da alimentação suculenta e abundante iam abarrotar-se de costeletas, lombos de porco, tortas de camarão, escabeches, guisados de peixes, e outras comidas desta feição; este ano, no largo, só deparamos com uma barraca triste e solitária. Há mais outra, a do sr. Valença, a qual de envergonhada foi encantoar-se lá para os fundos da igreja. Nesta há cavalinhos-de-pau em que certa laia de amadores da equitação tem dado formidáveis corridas, e quedas estrepitosas e vitoriadas. A nossa progressiva e refinada civilização vai banindo esses focos de indigestões e borracheiras, e não sofre mais do que doces leves e delicados, as queijadas, os bolinhos de amor, os pães-de-ló de macaxeira, canudinhos, capelinhas, rebuçados, melindres, e suspiros, a que todo o mundo se atira, e que todo o mundo apenas rega com água pura do Apicum, salvas sempre as honrosas exceções dos fiéis cultores da antiga lei, que continuam a concorrer às solitárias e envergonhadas barracas.

Para aviar a enorme massa de consumidores de massas, uma extensa fila de doceiras circula o largo em todas as suas direções, sentadas em cadeiras, costas ao mar, a face para a multidão, e adiante de si, sobre pequenas bancas, os tabuleiros atestados de doces de toda espécie, quartinhas d'água, e a competente lanterna acesa. Estas com as duzentas lanternas produzem uma maneira de iluminação quase à flor da terra, que não é dos espetáculos menos curiosos que ali se oferecem. Não ouso sondar o abismo do consumo e devoração de cada noite; o espírito recua salteado de horror diante do cálculo; baste dizer-se que os que têm a imprudência de passar o largo, à luz do dia imediato, o encontram alastrado e sórdido dos papéis de todas as cores que envolviam os extintos canudos e rebuçados, tão deliciosamente chuchurreados na véspera. Seria conveniente que os diretores futuros fizessem remover os despejos destas pacíficas batalhas noturnas, cuja vista é bem desagradável, sobretudo ao amanhecer do dia da festa.

As doceiras de tabuleiro podem considerar-se as tropas ligeiras desta guerra gastronômica; mas além disso os particulares que moram pela vizinhança, ou que para ali se mudam nesta quadra feliz, fazem enormes encomendas de grossa e pesada munição para os seus bailes e chás; e nas lojas do palacete do comendador Fernando está assentado o quartel-general desta dulcíssima indústria. Refiro-me à confeitaria do imortal Condeixa, de que dentro em pouco me tornarei a ocupar.

Em outras lojas do mesmo palacete embestegou-se o cosmorama do sr. Gregório; os guinchos de um estropiado realejo forcejam por atrair os curiosos, que ali, por via de regra, não costumam ser de tão boa companhia, como no palacete da rua da Paz. A entrada custa meia pataca (cento e sessenta réis).

No antigo alpendre de Nossa Senhora, e numa barraca erguida a poucos passos de distância, tocam alternadamente a música dos Educandos, e a banda de cornetas do Corpo Fixo. Nem a escolha nas peças; nem esmero na sua execução; os instrumentos parecem velhos e rachados, e estão certamente desafinados. Será prudente aplicar o ouvido e a atenção a outros objetos.

Ah o balão! Já me ia esquecendo que o balão é também um ingrediente indispensável nestas festas; e o que subiu aos ares na noite de domingo, 5 de outubro do ano da graça de 1851, foi com antecipação anunciado em todos os grandes jornais desta nossa Babilônia, como obra de uma associação de artistas, e produto de uma subscrição nacional, ou provincial... bem se vê que a coisa se tornou séria, e toma todas as proporções gigantescas de uma empresa industrial, artística e científica. Era logo depois da novena; e mal que desatado das importunas prisões o engenhoso e sublime artefato arrancou altivo e majestoso para as etéreas regiões, mil basbaques, a um tempo, e por um só movimento concertado, ergueram ao ar os olhos e narizes, e os queixos estupefatos, e manifestaram de boca aberta a glória e o prazer que os possuía, por alguns minutos de extática admiração, de confuso murmurinho, e zumbido universal. Era pra ver e admirar como na volta vinham praticando sábios e profanos sobre o memorável acontecimento! Qual notava que desta feita não tocou como das outras na torre da igrejinha, antes foi direito seu caminho; qual as centelhas que despedia, as guinadas que dava, e o rumo que tomou; qual enfim que era todo de papel branco, com bordados de verde bem no centro.

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(Obras de João Francisco Lisboa, vol. 4, 1865)