Leitura de "Os sofrimentos do jovem Werther"
(1774, romance epistolar)

"Ela não vê, não sente que está preparando um veneno que vai aniquilar a ambos; e vou saborear com volúpia a taça em que ela me oferecer a ruína. De que me serve o ar de bondade com que quase sempre me olha... Quase sempre?..."

... Um certo estado de alma, um sentimento particular, pode apossar-se de um poeta e impor-lhe, por assim dizer, a expressão e a representação, numa forma minuciosa ou resumida, de sentimentos que se referem a circunstâncias e eventos exteriores: festas, vitórias, etc. O exemplo mais típico deste gênero é dado pelas Odes de Píndaro que são, no sentido mais autêntico da palavra, poesias de circunstância. Goethe, por sua vez, utilizou muitas situações deste gênero e até se pode, alargando o quadro, considerar Werther como um poema de circunstância.

Ao escrever Os Sofrimentos do Jovem Werther, Goethe produziu uma obra de arte a que deu, como conteúdo, as suas próprias aflições e seus tormentos, os seus próprios estados de alma, procedendo como todo poeta lírico que, ao procurar aliviar o coração, exprime aquilo de que é afetado enquanto sujeito. Graças a isso, o que era interior imobilidade acha-se livre e transforma-se num objeto exterior de que a pessoa se libertou. Do mesmo modo as lágrimas servem de derivativo à dor do que, por assim dizer, se esvai através delas. Como ele mesmo o disse, Goethe escreveu o Werther para se libertar da angústia íntima, e conseguiu-o.

Em tais situações líricas, pode refletir-se, por um lado, um estado objetivo, uma atividade referenciada ao mundo exterior, e, por outro lado, um estado da alma que, desligando-se de tudo o que é exterior, regressa a si mesma e torna-se o ponto de partida de estados internos e de sentimentos profundos

Era 4 de maio de 1771. O jovem Werther começa a escrever suas cartas ao amigo Wilhelm, relatando sua chegada a um vilarejo alemão. Gostara do ambiente e do ar que se respirava; sentia-se cômodo e atraído pelas impressões sublimes daquela natureza campestre, cuja beleza era comparável somente à transparência de conduta observada naquela gente humilde. Talentoso pintor e escritor de origem aristocrática, Werther sentiu "que uma alegria contagiante apoderou-se de minha alma, semelhante às doces manhãs de primavera, que desfruto com todo o coração".

Sua amabilidade levou-o a conhecer Lotte, filha de um magistrado provincial, por quem se apaixonaria perdidamente. Werther ama Lotte como quem precisa respirar para viver. Deseja estar permanentemente ao lado dela como quem se entrega ao que existe de mais importante no universo: o amor. Mas é um amor impossível, Lotte irá casar-se com outro, e as circunstâncias morais da sociedade são obstáculo aos planos de Werther.

O tema do livro é a paixão, mas não a paixão disciplinada, comportada, condizente com os padrões e regras vigentes àquela época. É uma paixão sofrida até a aniquilação das forças vitais, na qual as barreiras da moral vêm totalmente abaixo, levada pela impulsividade livre. A obsessão por essa paixão e a impossibilidade de alcança-la farão com que Werther se torne um homem indisposto com a vida, alheio à realidade.

Toda a história é narrada pelo próprio Werther, em forma de cartas que Goethe afirma ter encontrado, publicando-as para honrar a vida do jovem Werther. É um estilo, aliás, já utilizado anteriormente por Jean-Jacques Rousseau em sua obra A Nova Heloísa, e cujo principal atrativo era a possibilidade de fazer o leitor questionar-se sobre a real existência dos personagens.

A obra é uma verdadeira expressão de sua época, pela força poética de sua linguagem e por captar a necessidade de transcendência que agitava então os espíritos juvenis, razão pela qual ela passou a servir de referência comportamental para quase toda a juventude européia. A roupa de Werther - casaca azul, colete e calções amarelos - tornou-se praticamente moda entre os jovens. O próprio Napoleão confessou a Goethe em 1808 que havia lido o livro sete vezes. Ele foi, sem dúvida, o maior acontecimento literário do século XVIII, vindo a se tornar o primeiro bestseller da literatura européia e o maior sucesso do autor.

O sucesso do livro trouxe consigo uma série de problemas, pois, tomando-o como referência, muitos jovens leitores lançaram-se em suas paixões, tomados por um sentimento de liberdade. Assim, é preciso um exame mais cuidadoso a fim de compreender as motivações do autor ao escrever tal obra, procurando tirar em nosso proveito aquilo que nos convenha como aprendizado.

Os Sofrimentos do Jovem Werther é uma espécie de confissão íntima realmente única, que faz o leitor penetrar no universo da sensibilidade romântica. É o início de um movimento que se dispersará por toda a Europa, chamando a atenção do homem para a sua natureza sentimental, em uma época em que a racionalidade, que permeava os meios intelectuais, não conseguia atingir o coração dos homens. O romantismo propunha que o saber não apresenta perigo desde que não se eleve simplesmente acima da vida e se afaste dela, mas queira servir à própria ordem da vida. Daí a necessidade do homem, antes de perguntar pelas leis do mundo, pelos objetos exteriores, e investiga-los, precisar responder a perguntas como: "o que somos?" e encontrar a lei primeiramente em si mesmo, através da reflexão e do autoconhecimento.

Naquela sociedade dominada pelas aparências, onde as atitudes exteriores assumiam um papel fundamental nas relações sociais, Werther chamara a atenção para o fato de todos colocarem a nossa essência em títulos de nobreza, em trajes bem quistos, no distanciamento entre os homens e a natureza. É neste sentido que, para Werther, o sentimento, a afetividade, a intuição e o irracionalismo contrapõem-se à ordem estabelecida, seja no plano social, seja no plano literário.

A paixão exagerada de Werther, levando-o a ruína de si mesmo, chama-nos a uma reflexão sobre nós mesmos, sobre nossas atitudes perante as pessoas a quem amamos e a importância que o amor possui em nossa existência. O amor absoluto é desejo de toda a humanidade, mas como alcança-lo? Como conciliar o desejo de liberdade e a fusão com o amor divino? Ao final, impõe-se a necessidade de descobrirmos qual a nossa verdadeira natureza, para que fim fomos criados, e o desejo de continuar sendo e de considerar o amor a única forma de plenitude possível.