Leitura de "Afinidades Eletivas"

"E assim descansam os dois amantes um ao lado do outro.
A quietude paira sobre sua morada; anjos serenos, seus afins,
olham-nos do espaço. E que momento feliz aquele
em que, um dia, despertarão juntos!"
(Epílogo de "Afinidades Eletivas")

De todos os livros de Goethe "Afinidades Eletivas" é o mais rico em matizes e meios-tons. O esquema de construção do romance está centrado na distribuição dos personagens aos pares. Não são casais no sentido matrimonial do termo, mas sim pares ligados por atrações inevitáveis. O interesse romanesco nasce do jogo de polaridades, encantamentos e repulsas que se estabelece entre os casais.

Mas o relacionamento Homem-Mulher é considerado aqui não apenas em sua complementação sexual, ele é também e principalmente objeto de análise moral e psicológica.

Houve na vida de Goethe, um nome predominante de mulher. Coincidência, acaso ou adoração? Que influência teria exercido sobre o grande gênio o nome "Charlotte"? Na vida real, ele amou quase sempre uma Charlotte. Influência da própria mulher ou do nome?

Charlotte Kestner e Charlotte von Stein passaram por sua vida, como amantes adoradas e musas inspiradoras. Na primeira, temos a Charlotte do apaixonado "Werther"; na última, a sublime Charlotte, heroína de "Afinidades Eletivas". Em sua imensa bagagem literária, vamos encontrar sempre "Charlotte", sublimada, exaltada, dignificada na beleza de sua prosa, no lirismo apaixonado de suas rimas. Mas qual a que lhe inspirou o amor, que transbordava de seu pensamento, que fluía de sua pena mágica? Todas, ou cada uma por sua vez? Teria havido aquela, que nenhuma outra igualava, a insubstituível?

Em Charlotte von Stein, muito mais velha que ele, com muitos filhos, teria sido a mulher ou o nome, que o atraiu? "O belo talismã de minha vida", como ele próprio a chamava.

Entre todas as beldades da corte, para ele, foi ela, sem dúvida, a mais sedutora. A primeira vez em que a viu contava, apenas, 26 anos e os 33 anos deliciosos dessa bela mulher, espirituosa, culta, delicada e ambiciosa, acenderam, na alma do jovem, o fogo da paixão.

Hermann Grimm tenta mostrar essa inclinação como pura, inocente, não ultrapassando os limites de grande dedicação e efusiva amizade; mas, se lêssemos a volumosa correspondência dos dois enamorados, ora cartas longas, ora ternos bilhetinhos, não estaríamos de acordo, com o biógrafo, embora ela não justifique, totalmente, as graves acusações de outros. A verdade é que, em Weimar, Charlotte sentiu-se profundamente ferida e decepcionada, ao descobrir a ligação de seu amigo com Cristiana Wulpius, moça de origem modesta, mas que adorava o poeta; furiosa, deixou a cidade, indo para uma estação balneária, não sem deixar-lhe uma carta, cheia de recriminações, a qual só foi respondida algumas semanas depois, quando o amigo lhe deu algumas explicações ponderadas, fazendo-a ver que ele não podia abandonar Cristiana.

Charlotte e Goethe ficaram estremecidos por muito tempo, e só alguns anos mais tarde reataram suas relações de amizade, tendo Schiller e sua mulher muito concorrido para isso.

Goethe temia afrontar a ira de sua amiga e a sociedade de Weimar; assim é que, vários anos, apresentou a "doce Cristiana" como governanta de sua casa. Só se resolveu a levá-la ao altar, quando, em 1806, achando-se gravemente doente, deveu a vida quase que exclusivamente aos cuidados incansáveis da dedicada jovem.

Como todos os círculos sociais, o de Weimar sentia também o mórbido prazer de dar curso à maledicência humana, e essa própria elite, que atacara a ligação ilícita dos dois, não aceitou, do mesmo modo, com agrado, aquele casamento "desigual".

Poucos meses antes de sua morte, Charlotte escreve a Goethe, no dia de seu aniversário, como um adeus velado:

"Mil venturas e bênçãos pelo dia de hoje. Possam os bons espíritos influir para que tudo, de belo e bom, lhe seja conservado, meu caro amigo. Aceite meus votos de um futuro livre de cuidados; para mim, porém, só desejo, caro, mui caro amigo, sua afeição à minha vida, que se extingue".

Charlotte von Stein (nascida von Schardt)

Agosto, 1826.

Momentos antes de morrer, expressou a vontade de que não desejava que seu corpo passasse pela casa de Goethe: queria poupar-lhe esse sofrimento.