ENSINAR E APRENDER

1) "Quando veio a público, a poesia de Cabral chocava. A secura da linguagem, o rigor construtivo do poeta que não acreditava em inspiração punha em cheque toda uma tradição. Cabral passou então a ser muito combatido pela crítica e pelos escritores de 1945. Acusavam-no de ser um poeta sem alma que fazia poemas frios, racionalistas, medidos a fita métrica e sem coração."

(Trecho do documentário Duas Águas - Direção e roteiro: Cristina Fonseca)

a - Solicite aos alunos que façam uma pesquisa sobre os conceitos de poesia. Sugira livros didáticos, literários, enciclopédias, dicionários, sites, vídeos, filmes etc. Podem ser consultados os seguintes livros:

Bosi, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
(Cap. 1 - Imagem, Discurso; cap. 2 - O som no signo; cap. 5 - Poesia.Resistência)

Hegel, Georg W. F. Estética: o belo artístico ou ideal. São Paulo:Nova Cultural, 1991.

Paz, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Introdução e cap. 1 -
O poema).

b - Selecione algumas poesias de João Cabral de Melo Neto e coloque os alunos em contato com o tipo de linguagem e com a construção de poesia desse autor. Por exemplo: "Lição de poesia" do livro O Engenheiro (1945), O Cão sem Plumas (1984) ou "Alguns Toureiros" do livro Paisagens com Figuras (1954).

c - Proponha que comparem os conceitos de poesia com os poemas de João Cabral selecionados e estudados.

2) Tendo em vista a pesquisa empreendida sobre o conceito de imagem na poesia (Bosi, Octavio Paz), propor que os alunos ilustrem alguns poemas tais como: "As Nuvens", "A Bailarina" e "O Engenheiro" do livro O Engenheiro (1945). Sugerir, em seguida, a construção de um mural contendo as ilustrações e o trecho do poema a que dizem respeito.

3) A obra de João Cabral de Melo Neto está profundamente relacionada ao meio geográfico e social do qual provém. Proponha um estudo da biografia e da carreira literária do poeta.

Em sua pesquisa sobre a vida de João Cabral, os alunos devem se deparar com o fato de que ele, como diplomata, morou vários anos na Espanha. Propor, a partir disso, uma comparação entre seus poemas que focalizam o ambiente nordestino e os centrados na paisagem espanhola. Características como o sol tórrido, o solo seco, o toureiro/cabra macho, entre outros, aproximam paisagens aparentemente tão diversas).

4) Considerando a influência da literatura de cordel nordestina sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto, propor um estudo que tenha como tema a literatura de cordel, ressaltando seu aspecto social e de registro histórico da vida nordestina.

5) "Em O Rio (1953), ... A voz poética é a do rio, que narra suas experiências históricas e sociais em um tom de "prosa" bem popular".(Campedelli, S.Y.; Abdala Jr., Benjamin . Literatura Comentada)

Após uma análise do poema, resgatando e tentando identificar cada um dos momentos citados durante a narrativa, os alunos deverão escolher outro rio ou até mesmo uma rodovia que passe por diferentes locais (exemplo: rio Tietê, rio São Francisco, rio Itajaí, rodovia Belém-Brasília etc.) e tentar compor um poema que descreva esses locais, semelhantemente ao que fez João Cabral em relação ao rio Capibaribe.

6) Propor a leitura do livro Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos e comparar com o auto Morte e Vida Severina (1965), de João Cabral de Melo Neto, no que diz respeito à linguagem e ao conteúdo.

7) Abaixo foram transcritos dois poemas, um de Manuel Bandeira e outro de João Cabral de Melo Neto. Após a leitura, proponha aos alunos que tentem descobrir semelhanças e diferenças entre eles. Leia-os também em voz alta com os alunos para que percebam a diferença de ritmo entre os poemas. Seria interessante que os alunos atentassem, por exemplo, para o fato de os versos de Bandeira, serem em sua maioria mais longos que os de Cabral. É como se Bandeira se deixasse invadir pelo fluxo das lembranças, enquanto João Cabral parece manter maior distanciamento.

Poesia de Manuel Bandeira

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois -
           Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

             Coelho sai!
             Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

              Roseira dá-me uma rosa
              Craveiro dá-me um botão
              (Dessas rosas muito rosa
              Terá morrido em botão...)

De repente
               nos longes da noite
um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva se ser menino porque não podia ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capibaribe
-Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redomoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas

Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos
Capibaribe
- Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
           que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
              Ovos frescos e baratos
              Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
              Ao passo que nós
              O que fazemos
              É macaquear
              A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
              Rua da União...
                                        A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
              Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô
(Em Estrela da vida inteira - 1966)


Poesia de João Cabral de Melo Neto

Volta a Pernambuco
A Benedito Coutinho

Contemplando a maré baixa
nos mangues do Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio,
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife me surgiu.

As janelas do cais da Aurora,
olhos compridos, vadios,
incansáveis, como em Chelsea,
vêem rio substituir rio,

e essas várzeas de Tiuma
com seus estendais de cana
vêm devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.

Mas as lajes da cidade
não me devolvem só uma,
nem foi uma só cidade
que me lembrou destas ruas.

As cidades se parecem
nas pedras do calçamento
das ruas artérias regando
faces de vário cimento,

por onde iguais procissões
do trabalho, sem andor,
vão levar o seu produto
aos mercados do suor.

Todas lembravam o Recife,
este em todas se situa,
em todas em que é um crime
para o povo estar na rua,

em todas em que esse crime,
traço comum que surpreendo,
pôs nódoas de vida humana
nas pedras do pavimento.
( Em Paisagens com Figuras -1954)

8) Ler o auto Morte e Vida Severina (1965) e fazer relações com o contexto social do nordeste. Proponha também a encenação da peça toda ou parte dela.

9) Abaixo foram transcritos três poemas: um de Carlos Drummond de Andrade, um de Manuel Bandeira e outro de João Cabral de Melo Neto. Leia-os e tente achar pelo menos um elemento em comum.

Poema de Carlos Drummnod de Andrade

Desaparecimento de Luísa Porto

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se, todavia, não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho de alma.

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno,
filial
e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
as ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intata nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.
(Em Reunião - 1969)

Poema de Manuel Bandeira

Poema tirado de uma notícia de jornal


João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da
Babilônia num barracão
sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(Em Estrela da vida inteira - 1966)

Poema de João Cabral de Melo Neto

Num monumento à aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

                          *

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
(Em A educação pela pedra - 1966)

Ficha Técnica Ensinar e Aprender:
Atividades pedagógicas: Vera Denise Barba
Coordenação pedagógica: Pedro Paulo Demartini


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Bibliografia do Poeta