Em
1987 Cabral publicou Crime na Calle Relator. Em 1990, já
aposentado na carreira diplomática como embaixador, publicou Sevilha
Andando. Pela primeira vez Cabral escreveu um livro inspirado
numa única pessoa, a poeta Marli de Oliveira com quem se
casou, em 1986, ao enviuvar do primeiro casamento.
A
partir daí começam a surgir livros que não estão baseados em projetos
únicos, detalhados. João Cabral retoma e retrabalha os grandes temas
que já estavam presentes em sua obra. O professor ensaísta João
Alexandre Barbosa faz a seguinte análise:
Os
poemas de Sevilha Andando repercutem o que já estava em Quaderna,
livro produzido na década de 60. Nesse trabalho, pela primeira vez,
a mulher e o lirismo amoroso entram na obra de João Cabral e entram
sob o domínio da tensão e não pela facilitação. Já em Sevilha
Andando, parece ter havido uma pacificação. É como se ele tivesse
encontrado a mulher sevilhana que ele havia procurado em livros
anteriores.
Além de Sevilha Andando ele escreveu Andando Sevilha
onde de modo novo retoma temas antigos.
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Trecho do poema VIVER
SEVILHA (Sevilha Andando - 1990) |
Poema
SEVILHIZAR O MUNDO
(Andando Sevilha- 1990)
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... Só em Sevilha o corpo está com todos os sentidos
em riste, sentidos que nem se sabia, antes de andá-la, que
existissem;
sentidos que fundam num só: viver num só o que nos
vive, que nos dá a mulher de Sevilha e a cidade ou concha em
que vive. ... |
Como é impossível, por enquanto, civilizar toda a
terra, o que não veremos, verão, de certo, nossas
tetranetas,
infundir na terra esse alerta, fazê-la uma enorme
Sevilha, que é a contra-pelo, onde uma viva guerrilha do ser,
pode a guerra.
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Na
opinião do escritor e ensaista Décio Pignatari " é preciso
compreender o barroco para compreender a Espanha. E isto ajuda a
compreender a obra de João Cabral porque ele vai assimilar o barroco
enquanto conceito e levar isso ao extremo. Um barroco que tenta
resgatar o Homem, assim como o barroco da Espanha tinha de resgatar
Deus. Ele fez um esforço extraordinário de tentar juntar a visão
marxista, o problema pré industrial do nordeste, a miséria do nordeste,
o barroco espanhol... buscando uma solução conceitual do seu poema
".
"O
Homem pra mim é, precisamente, o homem sofredor do Nordeste. O homem
que me interessa é o cidadão miserável, do nordeste cujo futuro,
menos miserável,
está ligado ao desenvolvimento do Brasil."
João Cabral de Melo Neto
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PREGÃO TURÍSTICO DO RECIFE (
Paisagem com Figuras - 1956) |
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Aqui o mar é uma montanha regular redonda e azul,
mais alta que os arrecifes e os mangues rasos ao sul.
Do mar podeis extrair, do mar deste litoral, um fio de
luz precisa, matemática ou metal.
Na cidade propriamente velhos sobrados esguios
apertam ombros calcários de cada lado de um rio.
Com os sobrados podeis aprender lição madura: um
certo equilíbrio leve, na escrita, da
arquitetura.
E
neste rio indigente, sangue-lama que circula entre cimento e
esclerose com sua marcha quase nula,
e
na gente que se estagna nas mucosas deste rio, morrendo de
apodrecer vidas inteiras a fio,
podeis aprender que o homem é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem não é a morte mas a
vida. |




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Ficha Técnica: Duas
Águas- João Cabral de Mello Neto; Realização: TV Cultura- 1997;
Apoio de Produção: Canal Sur- Sevilha; Roteiro e Direção: Cristina
Fonseca; Produção: Alejandra Hope e Lina Murano; Pesquisa Iconográfica:
Nerci Ferrari e Lina Murano; Iluminação: Roni Robson da Costa; Áudio:
Isac de Mello; Imagens: Elizeu Ferreira; Edição: Carlos Henrique
Carvalho e Cristina Fonseca; Edição de Imagem: Marcelo Stella; Pós-Produção:
Antonio A. Gomes e Dario de Oliveira; Trilha Sonora: Péricles Cavalcanti;
Trilha de Abertura: David Tygel; Poemas (voz) : Arnaldo Antunes