POETA E DIPLOMATA

João Cabral de Melo Neto viveu quarenta anos no exterior, em diversos e contrastantes países: Espanha, Inglaterra, França, Senegal, Mauritânia, Conacre, Guiné, Equador, Honduras, Portugal... desenvolvendo, lá fora, boa parte de sua obra literária. Na Europa, Cabral ampliou suas impressões do Brasil e nunca se esqueceu de Pernambuco, além de manter contato com intelectuais e artistas brasileiros que o visitavam no exterior ou trocavam correspondência com o poeta.

Viver na Espanha e conhecer a cultura espanhola fez, curiosamente, o olhar de João Cabral voltar-se para a poesia e o romanceiro popular do Nordeste. Pode-se dizer que ele passou por uma espécie de conversão e não pode fugir da literatura regionalista de sua época cujo último representante foi o escritor Guimarães Rosa.

Trechos do poema
A GIRALDA

(Agrestes - 1985 )

Sevilha de noite: a Giralda,
iluminada, dá a lição
de sua elegância fabulosa
de incorrigível proporção.
...

De todos os países em que esteve, o mais decisivo para sua vida e obra foi a Espanha. Cabral morou diversas vezes e por longos anos nas cidades de Madri, Barcelona e Sevilha. Nesses períodos aprofundou-se na literatura espanhola desde a leitura de " EL CID " até os poetas contemporâneos. E se deixou fascinar pela região da Andaluzia, elegendo para si a cidade de Sevilha. Além de Recife, Sevilha foi a cidade em que ele mais gostou de viver. Considerava-se regionalista não só em relação a Pernambuco mas, também era regionalista na Espanha. Apesar de ter vivido em Barcelona e Madri, João Cabral considerava-se sevilhano.


"Há que sevilhizar a vida .
Há que sevilhizar o mundo."

J.C. de Melo Neto

O contato com a Espanha ampliou o conceito dialético da sofisticada poesia de Cabral. Tensões e encontros: do litoral com o sertão, da Zona da Mata com o agreste, o encontro dos rios Beberibe e Capibaribe, e destes rios com o mar e também de duas cidades de países distintos: Sevilha, na Espanha e Recife, em Pernambuco. Aos poucos, sem abandonar a linhagem profundamente nordestina de seus poemas, Cabral passou a tecer constantes paralelos entre o universo dos engenhos, do mar e do sertão nordestino com a também seca e quente, cigana e exóticamente árabe região da Andaluzia.

Trechos do poema
NAS COVAS DE BAZA
(Educação pela Pedra - 1966)

 

O cigano desliza por encima da terra
não podendo acima dela, sobrepairado;
jamais a toca, sequer calçadamente,
senão supercalçado: de cavalo, carro.
O cigano foge da terra, de afagá-la,
dela carne nua ou viva, no esfolado;
lhe repugna, ele que pouco a cultiva,
o hálito sexual da terra sob o arado.

De onde, quem sabe, o cigano das covas
dormir na entranha da terra, enfiado;
dentro dela, e nela de corpo inteiro,
dentros mais de ventre que de abraço.
Contudo, dorme na terra uterinamente,
dormir de feto, não o dormir de falo;
escavando a cova sempre, para dormir
mais longe da porta, sexo inevitável.

 

O primeiro posto consular de João Cabral de Melo Neto foi em Barcelona em 1947. Lá o poeta tornou-se amigo pessoal de importantes artistas catalãos como os pintores Juan Miró e Antoni Tapis e o escritor e poeta visual Joan Brossa um grupo de intelectuais que se reunia em sua casa, na Calle Montanier, para trocar idéias sobre arte e política.

A Espanha estava vivendo um dos períodos mais difíceis do regime ditatorial do General Francisco Franco e suas fronteiras estavam fechadas. Para os artistas, uma vez que a arte contemporânea era proscrita pelo regime franquista, a convivência com João Cabral significava a possibilidade de estarem em contato com novas idéias e de manterem-se informados sobre o que acontecia no mundo exterior. João Cabral , por sua vez, era um crítico extraordinário e, com sua visão marxista, procurava influenciar este grupo de artistas na produção de uma arte mais humanista e menos apegada às correntes de vanguarda da época como o surrealismo e o dadaísmo.

Em Barcelona, Cabral ampliou suas considerações sobre o livro como suporte instrumental e artístico do poema. Ao lado das artes plásticas, o amor pelas artes gráficas se tornou tão manifesto que o poeta adquiriu uma pequena tipografia artesanal com a qual imprimia livros de poetas brasileiros e espanhóis, além de seus próprios poemas.

João Cabral era muito cuidadoso e manejava a prensa com grande precisão. Ele chamava estas publicações de " livro inconsútil " . Desta tipografia saíram Psicologia da Composição, de sua autoria, e a primeira edição de Sonetos de Caruixa do espanhol Joan Brossa que, até então, nunca tivera um trabalho seu impresso em livro. O aspecto gráfico da obra de João Cabral, embora não tenha sido bastante destacado, é quase tão importante como a própria poesia porque um complementa a outra.

Em 1950, Cabral publicou por sua própria editora O Cão sem Plumas e em 1954, O Rio. Nessa época, acusado de comunista e de fazer poemas engajados, foi obrigado a retornar ao Brasil e colocado em disponibilidade não remunerada pelo Itamaraty enquanto respondia a inquérito.

Segundo o próprio João Cabral, foi um acontecimento sem grandes conseqüências e após três anos ele retomou, normalmente, sua carreira diplomática.

Dando continuidade às suas concepções sobre o livro como suporte da poesia, João Cabral participou de um importante grupo chamado O Gráfico Amador, fundado por Aloísio Magalhães. Era um movimento de artistas pernambucanos, ligados às artes gráficas, que publicavam algumas edições em imprensa manual e apuravam o conceito do livro como um objeto artístico.
Nesta época Cabral lançou Aniki Bobo especialmente para O Gráfico.

João Cabral permaneceu no Brasil de 1953 até 1956. Neste período, além de Poemas Reunidos, publicou Duas Águas com os inéditos Morte e Vida Severina, Paisagem com Figuras e Uma Faca só Lâmina, obras bastante influenciadas por sua vivência no exterior.

Morte e Vida Severina é uma homenagem às diversas literaturas ibéricas. A foi encenada em 1965 no TUCA, teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com direção de Silney Siqueira, adaptação de Roberto Freire, música de Chico Buarque de Holanda e o ator Paulo Autran no elenco. Tornou-se um marco na história do teatro brasileiro. Narra a trajetória do retirante Severino que foge da seca do sertão, em busca de sobrevivência no litoral. No caminho, ao invés da vida que tanto anseia só encontra a morte.

O sucesso da montagem e da música, que foi tema da peça, tornaram João Cabral conhecido do grande público, mas nem por isso assimilado. Sua poesia, altamente intelectualizada, é difícil para o leitor comum, por isso, até hoje, em função da adaptação teatral, "Morte e Vida Severina" é um dos seus trabalhos mais lidos, estudados e encenados.

Em Uma faca só Lâmina Cabral concretiza a trajetória da melhor poesia moderna que é a de permitir várias leituras e interpretações da obra e não aceitar o leitor passivo.

Paisagem com Figuras é considerado seu momento espanhol. Entre outros poemas sobre a Espanha encontra-se o importante Alguns Toureiros onde mais uma vez Cabral define suas idéias sobre poesia e metapoesia, isto é, uma poesia sobre como deve ser a poesia.

O poema Pregão Turistico de Recife teve uma edição de 20 exemplares ilustrados pelo O Gráfico Amador.

 


Outros Textos da Biografia Especial de João Cabral de Melo Neto

O poeta e sua história
O poeta, a paisagem e a poesia

E a poesia Visual
Ambiente cultural e as primeiras poesias
Influências de Sevilha
Um lirismo contido
Ensinar e aprender
Bibliografia do Poeta