O Vate

Vate! Vate! que és tu? - Nos seus extremos
Fadou-te Deus um coração de amores,
Fadou-te uma alma acesa borbulhando
Ardidos pensamentos, como a lava
Que o gigante Vesúvio arroja às nuvens.
Vote! vote! que és tu? - Foste ao princípio
Sacerdote e profeta;
Eram nos céus teus cantos uma prece,
Na terra um vaticínio.
E ele cantava então: - Jeová me disse,
Majestoso e terrível.
“Vês tu Jerusalém como orgulhosa
“Campeã entre as nações, como no Líbano
“Um cedro a cuja sombra a hissope cresce?
“Breve a minha ira transformada em raios
“Sobre ela cairá;
“Um fero vencedor dentro em seus muros
“Tributária a fará;
“E quando escravos seus filhos, sobre pedra
“Pedra não ficará.”
E os réprobos de saco se vestiam,
Em pó, em cinza envoltos;
E colando co’a terra os torpes lábios,
E açoitando cu’as mãos o peito imbele,
Senhor! Senhor! - clamavam.
E o vate entanto o pálido semblante
Meditabundo sobre as mãos firmara,
Suplicando ao Senhor do interno d’alma.
Foram santos então. - Homero o mundo
Criou segunda vez, - o inferno o Dante, -
Milton o paraíso, - foram grandes!
E hoje!... em nosso exílio erramos tristes,
Mimosa esp’rança ao infeliz legando.
Maldizendo a soberba, o crime, os vicio;:
E o infeliz se consola, e o grande treme.
Damos ao infante aqui do pão que temos,
E o manto além ao mísero raquítico:
Somos hoje Cristãos.