Desalmado

Ninguém merece aquilo que não dá,
e eu não ganho carinho de ninguém.
Assim, não vou pagar o mal c'o bem.
Comigo ninguém tem colher de chá.

No céu só pode haver intenção má.
As boas vão pro inferno, um armazém
inútil como o cérebro de alguém
que tem computador, mas cego está.

É o caso deste pobre sonetista,
que, quanto mais apela por socorro,
mais dor e escuridão lhe ataca a vista.

Odeio quem faz farra enquanto morro,
mas sonho, num anseio masoquista,
ceder, lamber seu pé, ser seu cachorro.

Glauco Mattoso