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Desolado
Se é rei quem tem um olho em terra cega,
o cego é escravo em terra de caolho.
As barbas já tratei de pôr de molho
ao ver pimenta ardendo num colega.
Depois que fiquei cego, ninguém nega,
meu amanhã jamais sou eu que escolho.
Se é noite o dia todo, eu só me encolho,
pois sei onde é que o pontapé me pega.
No fundo, a sensação que mais molesta
é estar preso no escuro do porão
enquanto quem enxerga faz a festa.
No chão, sentindo o peso do pisão,
um único consolo a mim me resta:
lamber a sola de quem tem visão. (*)
(*) Este verso, excepcionalmente sáfico, pode igualar-se aos demais
no
acento heróico se adotada a variante:
lamber-te a sola a ti, que tens visão.
Glauco Mattoso
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