O descobrimento do Brasil

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A rota traçada nas linhas e entrelinhas do regimento era, pois: seguir a frota de Lisboa à ilha de Santiago, de Cabo Verde, daí seguir a frota à ilha de Santiago, de Cabo Verde, daí seguir pelo sul, bordejando pelo sudoeste, até alcançar a costa da Terra dos Papagaios, daí zarpar para o Cabo, dobrá-lo e seguir para a Índia.

Esse rumo inda é o mesmo que hoje seguem os navios que vêm de Lisboa ao Brasil. Pronta a frota de Cabral, partiu ela do Tejo aos 9 de março de 1500, acompanhando-a o rei d. Manuel até fora da barra. Cinco dias depois, a 14 de março, passa a frota pelas Canárias onde encontra calmaria e onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde e, exatamente um mês depois, a 22 de abril, avista a terra brasileira, gastando, de Lisboa a Porto Seguro, 43 dias.

Dos historiadores que consultei, e não poucos foram, sobre a viagem de Cabral ao Brasil, atribuem uns ao acaso esse feito, dizem outros que a frota fora impelida para a nossa costa por um forte temporal, que a apanhou.

Nenhum deles, porém, explica em que altura a frota foi apanhada pelo temporal nem quanto tempo este durou.

Ora, contra esse forte temporal protestam energicamente dois documentos que possuímos da viagem de Cabral: as cartas que Mestre João, o cosmógrafo da frota, e Vaz Caminha, o escrivão, enviaram ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, pela nau que daí partiu a 1o de maio, de regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarca.

Nem o cosmógrafo nem Caminha falam de tal temporal, pelo contrário, o que dizem é que, durante a viagem, houve calmaria e que por causa dela perdeu a frota um dia em frente às Canárias. Temporal sofreu a frota, mas depois que deixou o Brasil e se fez vela para o Cabo, onde faleceu o seu descobridor Bartolomeu Dias.

Não houve, pois, temporal na travessia até ao Brasil, nem o acaso interveio na chegada da frota cabralina a esta terra. O rumo a seguir tinha-lhe sido traçado; além disso, já nessa época tinham os portugueses perfeito conhecimento das correntes marítimas e dos ventos gerais e sabiam aproveitá-los de acordo com as rotas a seguir. O duplo fim de Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao Brasil, era, como já o disse, abastecer-se de lenha e água, dando descanso à marinhagem e tomar posse oficial da Terra dos Papagaios para a coroa portuguesa. O acaso e o temporal têm, portanto, de ser banidos dos livros que se ocupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.

O primeiro e grande historiador que o Brasil teve, ainda hoje o mais sincero e verídico, é Pero Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou ao rei d. Manuel, numa comovente e encantadora carta, onde a minúcia corre parelhas com a simplicidade, a história da travessia, da chegada e da permanência de Cabral na terra brasileira.

Nessa longa missiva, escrita de Porto Seguro e datada de 1o de maio de 1500, o consciencioso historiador dá conta ao seu rei e senhor de todas as peripécias da viagem, desde a partida de Lisboa até ao Brasil e ainda de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada em frente à costa brasileira. Persuadido de que o que mais interessaria a D. Manuel era o conhecimento exato da terra reconhecida, da gente que a habitava, dos seus costumes e índole, das riquezas que possuía e da facilidade que poderia oferecer à colonização, não poupou minúcias para pôr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.

É assim que ele descreveu com entusiasmo e cores vivas o esplendor da natureza brasileira, a frescura, abundância e potabilidade das nossas águas, a brandura do clima, a beleza do nosso céu, onde rutilava o cruzeiro, referindo-se com interesse e insistência à índole pacífica dos nossos indígenas, aos seus hábitos e costumes, à beleza das suas formas, à sua completa inocência, depreendida da sua completa nudez, e à facilidade com que aceitavam a catequese, parecendo-lhe empresa de pequeno esforço fazê-los cristãos, chamando-os ao grêmio da igreja. Tratando dos produtos naturais, descreveu a fauna e a flora que encontrou, a fauna e a flora que encontrou, acentuando que os íncolas haviam dado demonstrações evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.

Descrevendo o que fizeram os indígenas, que acudiram à praia, quando das naus partiram as primeiras almadias para o transporte de água, diz que "os índios logo trouxeram cabaças e tomavam alguns barris que nós levávamos, enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis."

Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina começou logo por fazer aguada e prova também que os indígenas vinham oferecer água aos homens brancos, como se já estivessem habituados a praticar esse serviço, repetindo atos praticados anteriormente; o que demonstra que não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.

A facilidade com que alguns dos naturais se deixaram capturar e levar a bordo da nau capitânia, ali permanecendo e dormindo tranqüilamente durante uma noite, como narra Caminha, prova ainda que os nossos indígenas já estavam familiarizados com os europeus, que já os conheciam, que conheciam os seus hábitos e costumes, que deles não tinham receio.

E isso é ainda uma prova indireta de que os portugueses já haviam estado no Brasil antes de Cabral aqui chegar. E, de fato, cá estiveram, porque já aqui estava João Ramalho, que havia chegado 10 anos antes e que tanto facilitou a missão de Martim Afonso, quando este aportou à antiga capitania de S. Vicente.

Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Pascoal, à terra o nome de Vera Cruz, porque no céu rutilava o cruzeiro, e ao porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo de Pascoela, e, narra Caminha, que o capitão-mor deliberou ouvir missa e sermão em um ilhéu de Porto Seguro. Logo ali se armou o altar e frei Henrique de Coimbra oficiou, cercado de todos os padres da frota. Foi essa a primeira missa, de que temos notícia exata e circunstanciada, dita no Brasil, que forneceu assunto para um dos mais belos e sugestivos quadros de Victor Meireles. Terminada a missa, frei Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de púlpito, e dali pregou, fazendo a história do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo a terra reconhecida por Cabral sob a proteção da Cruz. À missa e ao sermão assistiram os naturais que ao ilhéu acudiram e que, ao depois, folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitânia discutiu-se depois se conviria tomar dois indígenas para enviá-los ao reino, ou se seria preferível deixar entre eles alguns degredados, sendo por grande maioria adotado de preferência este último alvitre, pois os degredados, ficando ali, aprenderiam a língua dos naturais e poderiam servir de intérpretes, quando o rei mandasse nova frota ao Brasil para o colonizar; acresce que era do plano de Cabral, como foi mais tarde do de Martim Afonso, não hostilizar os indígenas, não lhes incutir desconfiança alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os violentar jamais, para assim não sair dos preceitos da caridade cristã e tê-los sempre como aliados. Para os ir habituando à vida com os brancos, que deviam ficar definitivamente com eles, foram logo enviados à praia e aí deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os naturais; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar às naus. Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar, a primeira cruz, que ficou em terra brasileira e que confirmou o nome de Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indígenas auxiliaram depois a abastecer as naus de lenha e de água. E quando a maruja beijou a cruz erguida, os índios também a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que levaram Caminha a afirmar "que era gente de tal inocência que, se os entendêssemos e eles a nós, seriam logo cristãos, porque, segundo parece, não têm nenhuma crença". E acrescenta, logo depois, na sua luminosa carta ao rei: "se os degredados, que hão de ficar, aprenderem bem a sua fala, não duvido, segunda a santa tenção de vossa alteza, fazerem-se cristãos e crerem a nossa santa fé à qual praza Nosso Senhor que os traga, porque decerto esta gente é boa e imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhe quiseram dar... e, portanto, v. alteza, pois tanto deseja acrescentar na santa fé católica, deve entender na sua salvação, e prazerá a Deus que com pouco trabalho será assim."

Prova este trecho de carta do escrivão da frota que ele conhecia a tenção do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturais das terras, por onde passasse a frota, ao grêmio da igreja e que, ao contrário do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do seu programa assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os naturais pela brandura, e carinho, incutindo-lhes a fé cristã.

No dia primeiro de maio de 1500, véspera da partida de Cabral para o Cabo, nova missa foi dita por frei Henrique de Coimbra, não mais no ilhéu em que dissera a primeira, mas junto à cruz erguida em terra e à qual foi pregado o escudo das armas de Portugal.

Ainda a essa missa assistiram os indígenas, imitando todos os gestos que viram fazer aos portugueses e, depois do sermão, frei Henrique lançou ao pescoço de todos os que ali estavam, pequenos crucifixos de metal, que eles beijaram com satisfação e receberam com visível empenho.

Em seguida, foram-se os mareantes para as naus, deixando em terra dois degredados e no dia imediato, 2 de maio, a frota fez-se de vela para o Cabo da Boa Esperança, tendo regressado ao reino uma das caravelas, capitaneada por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a notícia do reconhecimento oficialmente feito da terra do Brasil e da sua posse para a coroa portuguesa.

A essa terra, que era conhecida pelo nome de Terra dos Papagaios e que Cabral dominou Vera Cruz, pôs d. Manuel, em 1502, o nome de Santa Cruz, que foi posteriormente substituído pelo de Brasil, devido ao grande comércio do pau-brasil que ela produzia.

Dando conta, em carta, ao rei da Espanha do reconhecimento do Brasil feito por Cabral, disse d. Manuel: "o capitão deixou ali dois degredados à mercê de Deus." Um dos pilotos da frota explicou depois que esses degredados puseram-se a chorar e que logo os naturais os animaram, mostrando ter piedade deles.

Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela que, além desses dois degredados, que foram abandonados em terra, dois grumetes da frota para ela fugiram e nela ficaram por sua livre vontade, o que significa que a gente que a habitava era pacífica e hospitaleira.

Vem talvez daí a herança dessa proverbial hospitalidade brasileira, que tanto surpreende e encanta os estrangeiros que visitam o nosso país.

Eis, senhores, como foi descoberto o Brasil e como Cabral, 65 anos depois do seu descobrimento, o reconheceu e dele oficialmente tomou posse para a coroa de Portugal, à qual aliás pertencia pelo tratado de Tordesilhas.

Não coube, pois, a Cabral a grande glória de descobrir o Brasil, mas coube-lhe a não pequena glória de fazer o seu reconhecimento e dele tomar posse para o país que o descobrira, realizando o memorável feito sem hostilizar os filhos dessas regiões incultas, sem inflingir um ligeiro castigo, sem despertar neles o ódio que Colombo e os espanhóis, que depois vieram à conquista da América, acenderam entre os indígenas, dizimando-os, submetendo-os a ferro e fogo, caçando-os bárbara e desumanamente com cães amestrados na caça do homem, como quem caça hienas e lobos!

Essa imperecível glória coube a Cabral e basta ela para que se justifique o preito de admiração que lhe rendemos, sem olvidar os serviços inestimáveis dos seus maiores na busca e descobrimento desta terra abençoada.

Bastava a sua caridade cristã para com os filhos deste país para que lhe devêssemos o monumento que no Rio de Janeiro se acha erguido em frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a sua memória imaculada e a do seu feito incruento.

Com o reconhecimento do Brasil em 1500, fechou Portugal com elo de ouro o ciclo grandioso das suas descobertas no século XV com as quais dilatou o mundo e fez avançar a civilização.

Nesse século de estupenda atividade marítima, em que os lusos mareantes, guiados e instigados pela voz profética do infante d. Henrique, avançaram sem pavor pelo mar imenso e tenebroso, que devia estar cheio de escolhos, de bruma negra e povoado de monstros assustadores, descobriram eles, caminhando para o desconhecido, a ilha da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do arquipélago dos Açores, todas as de Cabo Verde, o mar de Sargaços, uma grande parte do Brasil, uma parte da América Central e da América do Norte e, caminhando de ousadia em ousadia, dobraram o Cabo das Tormentas, descobriram e atravessaram o estreito de Magalhães, fizeram a primeira viagem em redor do mundo, apoderaram-se de uma parte da Ásia e de uma parte da África, enchendo o mapa com conquistas suas!...

(Primeira conferência da série organizada pelo Centro Republicano Português de São Paulo, realizada no Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, na noite de 3 de junho de 1911.)

Garcia Redondo