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Medo do quê? Ela estava lá, lá foi ela. Eu estava aqui, aqui estou eu. A noite estrelada, romântica, era propícia, incitava os corações a realizar os seus maiores desejos. A música dava o clima, que era de descontração e alegria, facilitando as conversas. A bebida já deixara à todos ébrios, encorajando besteiras. Tudo era fácil, muito fácil. Bastava a iniciativa. A iniciativa era tudo. Nada mais era algo. Eu a via linda, brilhante, me esperando. Tudo já havia sido arranjado: eles lhe falaram o que eu deveria ter dito e ela se separou de suas amigas para me encontrar no pátio. Estaríamos completamente sozinhos. Perfeito, era só chegar nela e conversar. O resto? O resto rolaria naturalmente. Simples, apesar de complicado (ou complicado, apesar de simples? Sei lá.). Não fui. O porquê é fácil de explicar: medo. Simples e puro medo. Medo do que, eu não sei, mas sei que era medo. E medo. E medo. Apenas puro e simples medo. Um medo tão medroso que igualava-se à burrice. Cá-lá, fiquei cá e ela saiu de lá. Cansou-se. Não havia por que me esperar, esperar pra que, se ele não vem? Com a sua saída, uma metamorfose: meu medo (= burrice), transformou-se em decepção. Não com ela, com ela não! Comigo. Somente comigo. Como pude ser tão burro? Cacete! Idiota! Covarde! Fiquei lá, olhando para o espaço vazio que outrora havia sido ocupado por ela e que, por isso mesmo, tornou-se ainda mais vazio depois de sua saída. Fiquei olhando, olhando... em nada pensava, apenas olhava, olhava... Depois desse dia, nada mais aconteceu. Nem de bom, nem de ruim. Logo, a situação era péssima. Ela não me olhava mais, olhar pra que? Me desejava, me queria, eu sei. Eu realmente sei. Mas de que isso valia? Não valia de nada, não vale de nada. Foi um fora. O pior tipo de fora. Um fora sem ter havido um dentro antes.
Gabriel Mallet Maissner |