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Pessoa perdido Poeta encontra tradução desconhecida feita pelo autor de "Mensagem" A 26 de maio de 1990, o então suplemento "Letras" deste jornal divulgava que o livreiro paulista José Luiz Geraldi, garimpando no seu comércio de obras raras, havia descoberto cinco traduções de Fernando Pessoa, até então desconhecidas, de poemas de Tennyson, Wordsworth, Thomas Moore, John Whittier e James Lowell, encontradas na "Biblioteca Internacional de Obras Célebres", um cartapácio de 24 volumes com cerca de 13 mil páginas. Os conhecedores da obra de Fernando Pessoa consultados foram unânimes em afirmar que essas traduções eram desconhecidas, não constando de nenhuma bibliografia do poeta. A descoberta era, sem dúvida, uma notícia literária de importância para um melhor conhecimento da obra completa de Fernando Pessoa, principalmente por não constar de seu acervo (o famoso baú). O crítico e ensaísta português Arnaldo Saraiva, grande estudioso da obra pessoana, nove anos depois, publicou um livro denominado "Fernando Pessoa - Poeta-Tradutor de Poetas" (Nova Fronteira), em que, referindo-se em tom um tanto depreciativo àquela descoberta, relata ter encontrado muitas outras traduções de Pessoa ou atribuíveis a ele, numa pesquisa mais aprofundada que fizera no monumental calhamaço. O trabalho de Saraiva é exemplar: cita fontes, números do volume e da página, pesquisa a data da edição da obra, seus autores e colaboradores, cataloga o corpus das traduções pessoanas e até mesmo analisa a sua teoria e prática da tradução. Obra impecável, não fosse por lhe ter
passado pela peneira crítica uma página, precisamente
a de número 9.802, do volume 20, em que aparece, com a indicação
"Trad. de Fernando Pessôa", o poema "A Glória",
de um equívoco sr. Alexandre Magariños Cervantes. O
autor, segundo informa a epígrafe do poema, é um poeta
"uruguayano" (sic), nascido em Montevidéu, em 1825,
que iniciou sua carreira literária na Espanha, foi depois a
Paris, onde fundou a "Revista de Ambos Mundos". Em 1855
regressou à pátria, onde foi catedrático de direito
internacional na universidade, senador e ministro. Por aí pode-se
avaliar a qualidade dos poetas. O poema é medíocre e
grandiloquente, mas a culpa da escolha não pode recair sobre
Pessoa, que fazia esses trabalhos com espírito amanuense de
tradutor profissional e sabendo que a maioria deles sairia sem indicação
do tradutor. A Glória Alexandre Magariños Cervantes Avante!... sempre avante!... nada importa Avante!... sempre avante!... nada importa Não importa que em louco torvelinho Sob o pé do viageiro audacioso E avante seguirá, e sempre avante! O sol a prumo lançará seus raios Ele impassível cruzará os braços, E entre nuvens de cinzas escaldantes Avante sempre!... Fétidas lagoas, Serpentes que anunciam-se ferindo, Bárbara tribo que se oculta infida Nada amedronta nem detém o forte Um impulso secreto, um misterioso E cai, e se levanta, e cai de novo, Talvez por prêmio do afã seu, ao grato E talvez o demônio - cujo esforço Deste modo é a glória!... os que a perseguem Assim somente se fecunda e brota Enquanto o homem vive, ela lhe pede O porvir que não chega senão quando Vem a glória depois, a virgem casta, A terra beija que seus restos cobre, São Paulo, Domingo, 14 de Novembro de 1999. Ivo Barroso especial para a Folha de São Paulo Ivo Barroso é poeta e tradutor, entre outros, de "Arthur
Rimbaud |