| Realismo e idealismo
Ora, de todos os princípios estéticos o que, por assim dizer, serve de base à teoria da arte, refere-se ao objeto da arte ou à maneira de concebê-la. O objeto da arte é assunto sobremodo controvertido; de sorte que desde tempos remotos, a começar de Platão até hoje, não teve ainda solução definitiva. No meio, porém, das divergências podem assinalar-se duas opiniões principais, a que as outras mais ou menos se prendem. São opiniões exclusivas e opostas. Uma faz consistir a arte na imitação da natureza ou da realidade exterior: é o realismo. A outra contempla a arte com a interpretação da natureza pelos meios mais expressivos, ou como a representação ideal do belo: é o idealismo. Conforme o realismo, a arte deve reproduzir tudo o que ela é capaz de imitar na esfera de natureza. Neste sentido tem o mesmo valor para ela o belo ou o feio, a virtude ou o vício, o bem ou o mal; julga legítima a expressão de tudo isto; tudo isto põe patente, sem exceção do que o pudor costuma encobrir, e a delicadeza afastar dos olhos, não duvidando até preferir ao espetáculo do belo a exposição das mais extraordinárias deformidades. Quem para logo não percebe que, assim compreendida, a arte em vez do puro sentimento do deleite, causará tédio profundo, acompanhado muitas vezes de asco? De suas combinações ela sem dúvida não exclui elementos contrários ao belo; mas não os emprega, senão pela necessidade de estabelecer contrastes, destinados a realçar-lhe os efeitos. A tal necessidade, portanto, os restringe; só na proporção exigida por esta os aplica, à maneira de um recurso transitório, acidental. O que de si mesmo é feio, hediondo, por melhor imitado que seja, não logra tornar-se agradável. Não pensavam assim Aristóteles e Boileau; mas, se a presença de uma figura revestida de forma artística, apesar da sua fealdade, influi no ânimo certo prazer, não é pela recordação do original, mas pela admiração do talento que soube executar semelhante obra, dando-lhe uma expressão estética superior. Logo, portanto, que a arte se empenha em revelar toda a casta de deformidades, físicas ou morais e, com sacrifício do belo, as acumula sem conta nem medida, certamente falseia o seu objeto, atraiçoa a sua missão. Entretanto o realismo, imitando sem seleção os objetos da natureza, de mais a mais os translada integralmente, com o rigor de fidelidade de uma tradução literal. Mas a arte se tornaria supérflua, se com efeito estivesse
adstrita a espelhar a crua realidade. A suas contrafações
fora preferível a obra viva da própria natureza. A arte mesma se encarrega de contradizer na prática esse mecânico processo que a obriga ao papel de simples copista; porquanto a escultura, a pintura, a música, a poesia, por amor do sentimento estético, omitem nas suas produções vários pormenores que a natureza acentua, ou acrescentam outros alheios à realidade exterior. Por tudo, pois, há mister procurar-se a explicação da essência da arte em um princípio do belo, único, absoluto, imutável, extreme das imperfeições que degradam o belo manifestado pela natureza finita. É sob o influxo desse ideal supremo que a arte procura decifrar o belo, em face do mundo exterior e do mundo moral, duplo teatro em que ele se ostenta; expunge-o de todos os acessórios inúteis, assim como lhe dá relevo aos atributos característicos; até que, debaixo de novo aspecto, o reproduz mais eloqüente e encantador. Quando assim a arte consegue o acordo da idéia e da forma, graças à inspiração espontânea do artista, que lhe imprime o selo indelével da sua personalidade, a arte longe de imitar a natureza, a interpreta do modo mais expressivo. O idealismo se resume em semelhante interpretação; e de conformidade com ele a arte pode ser definida a representação do belo por meio de formas ideais. Por que maneira entretanto a poesia preenche as condições gerais da arte? A representação do belo pela poesia depende do mesmo princípio comum às outras artes. Também a poesia idealiza o mundo real e o mundo infinito do espírito; escolhe neles os assuntos de suas concepções, e as torna significativas, encarecendo-lhes tanto o sentido, como a forma da palavra rítmica sob a qual se revela. Assim a poesia oferece ao espírito somente a verdade ideal, complexo de pensamentos, sentimentos, ações, fatos, despojados de qualquer alcance prático ou interesse positivo. Narra, mas não com a severidade analítica da história; ensina, mas avessa às fórmulas das induções e deduções científicas; discorre, convence, comove, mas sem a observância estrita dos preceitos da eloqüência. Por outra parte, nas suas narrações foge de multiplicar episódios; economiza demonstrações quando se faz didática; empresta breves discursos aos seus interlocutores; enfim, das suas pinturas elimina todas as particularidades ociosas. Concentrada por tais meios, destaca-se a representação poética pela proeminência dos traços e contornos principais dos caracteres, das figuras, dos quadros e das cenas. Para dar-lhes vulto concorre notavelmente por seu turno a palavra articulada, já pelas galas e matizes de seu estilo grandíloquo, já pelos artifícios da versificação, ricos de efeitos de melodia e harmonia. Apesar, porém, de ser tão naturalmente adaptada ao belo ideal, a poesia foi também invadida pelo realismo, encarnado sobretudo no romance, o qual não deixa de ser em certo sentido um produto poético. O romance realista acaso tem a pretensão de substituir ao idealismo literário, que ele afeta confundir com as pieguices de um sentimentalismo alambicado, como se o idealismo deveras consistisse nessas ridículas abstrações de imaginações doentias. O certo é que o romance realista parece haver-se tornado no estrangeiro, e nomeadamente em França, a forma predominante e predileta da literatura contemporânea. Naquele país tem-lhe dado aspectos múltiplos os Champlfeury, Feydeau, Flaubert, Goncourt, Zola; e já o classificaram em atenção a várias espécies, denominadas realismo burguês, imaginário, fisiológico, byroniano. Mas afinal todas estas espécies filiam-se ao tipo genérico do realismo, distinguindo-se pela análise anatômica e deslavada das misérias e torpezas humanas. (Tese para o concurso da cadeira de Retórica, Poética e Literatura Nacional, 1878.) |