A Felicidade

Ser feliz não é ocioso
Passar dias festivais,
Nem ter cofre precioso
Pejado de cabedais;

Não, isto não é ventura;
Ao mesmo Creso tortura
A agonia do sofrer;
Vive o rico na opulência,
Mas desgostoso a existência
Não cessa de maldizer.

Ser feliz não é pujante
Conquistar cem regiões
Mostrar-se um vulto que espante
Pelo brilho das ações;
Acender em cada passo,
Seguro, de glória um traço
Indelével, imortal;

E por fim, co'a fronte erguida,
Tranqüilo perder a vida,
Tendo ganho um pedestal.
Não é, não. Da glória a estrada
De espinhos coberta jaz;
É árdua, longa a jornada,
Que, por seu trilho se faz.

A fama nos colhe o fruto;
O egoísmo corrupto
Faminto, impudente o rói:
O homem deificado
Foi antes martirizado,
Chame-se gênio ou herói.

Ser feliz é nesta vida
Ter um seio a estremecer,
Onde a alma beba insofrida
O frenesi do prazer;
Onde a fronte macilenta
Sinta o calor, que aviventa
Com suave languidez;

Onde perfumes aéreos
Embalsamem os mistérios
Da amorosa embriaguez.
Ser feliz é, deslembrado
Dos mundanos vaivéns,
Junto do ente adorado
Gozar inúmeros bens;

Levar tempo indefinido
Em seus olhos embebido,
Como quem atento lê;
Co'o peito que forte pulsa,
A mais pequena repulsa,
Dizer-lhe terno: Por quê?

Ser feliz é no retiro
Ter companheira fiel,
Que pague longo suspiro
Co'um beijo, que sabe a mel;

Com ela amar os luares,
As aragens salutares,
A sombra que envolve a chã,
As flores da sicupira,
E o hino de cada lira,
Que soa pela manhã.

Ser feliz é, nessas horas
De tédio e vaga aflição,
De lembranças opressoras,
De opressora inquietação,
Co'aquela que nos entrega,
Ébria de amor, de amor cega,
O fio do dias seus,
Procurar o santuário,
E bem ao pé do Calvário,
Orando, falar a Deus.

Não! tudo não é vaidade:
Não! tudo não é sofrer:
Existe a felicidade,
Logo que existe a mulher.
Amai-a, amai-a deveras;
O amor é das quimeras,
Se ele é quimera, a melhor:

Nutri um amor profundo,
Que há de encantar-vos o mundo.
A felicidade é o amor!