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Unidade ou Diversidade "Um dos pontos de reflexão das considerações de Fernando Pessoa é a solidão a que qualquer ser humano está votado( ) perdido diante da infinidade cósmica, divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem e afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm."
O problema da unidade em Pessoa tem vindo a ser alvo
dos mais complexos estudos. O problema da unidade pode ser colocado do ponto de vista de identidade divergente. Mário Sacramento pronuncia-se desta forma "se por unidade não nos resignamos a confundir a identidade resultante da permanência pura e simples de certas características de índole, concepção e estilo, isto é, se por unidade implicarmos uma acepção dialéctica de pensamento que se opõe para se ultrapassar teremos de a negar à obra de Fernando Pessoa na medida até em que conviermos que os problemas criados pelos heterónimos coexistem na sua obra ortónima (..) os heterónimos serviram assim de referência a Pessoa como pontos de referência às suas tão-só mais ousadas dicotomias intímas." Numa carta a Cortes-Rodrigues, Pessoa escreve: "Tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos..." Embora esta passagem denuncie uma crise psíquica consigo próprio, no entanto, a sua gradualmente adquirida auto disciplina tem conseguido unificar dentro de si "aqueles elementos divergentes que eram susceptíveis de harmonização". Parece bastante a Pessoa (ele o diz) o ter posto em Caeiro, Reis, Campos "um profundo conceito de vida", diverso em todos os três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa do existir. Chama também "insincera" à literatura que não contenha " uma fundamental ideia metafísica " pela qual transmita uma noção da gravidade e do mistério da vida. Na obra "A Metáfora em Fernando Pessoa "Maria da Glória Padrão tenta auscultar as múltiplas trajectórias de absurdização que o poeta imprime às suas próprias condições de vida. O método bachelardiano de exegese do imaginário fica ao serviço de uma perspectiva diferente: a do existencialismo. Através do método bachelardiano, o que a autora vai buscar à obra de Pessoa é sobretudo uma tipologia de concepções (parciais ) do mundo, ou da vida, que o poeta sucessiva ou alternativamente esboça para as reduzir ao absurdo. Mário Sacramento, no ensaio que lhe consagrou, também se empenhou no mesmo objectivo. Mas com uma diferença: Maria da Glória Padrão baseia o seu trabalho num levantamento de imagens a partir dfo texto, e não num levantamento de tópicos doutrinários, como Sacramento. Glória Padrão identifica estas trajectórias
de absurdização como matéria de obra poética,
ao passo que Sacramento as encara como testemunho da não- genialidade
de Pessoa. Pascal revelou a consciência de um ser humano perdido na infinidade dos espaços que a mecânica clássica acabava de descobrir na sua época. Na perspectiva pascaliana, o sentir-se perdido no infinito espacial assinala outro infinito que é humano: o infinito da consciência: a infinidade do tempo e a infinidade dos graus psíquicos da consciência-inconsciência. O que Pessoa faz como pessoa literária, na abulia
que é comum a todos os contrastes heteronímicos é
tentar transcender, exprimir através duma vontade real essa
abulia. A metáfora deixou de ter uma finalidade puramente retórica para desempenhar um função duplamente objectiva e subjectiva. "A metáfora é ela mesma designação metafórica pela multiplicidade ilimitada das suas causas, dos seus efeitos e das suas funções." Através das suas constantes figurações concretas do abstracto, Glória Padrão tenta captar a consciência do homem que ditou a estrutura da obra. Depois de distinguidas e recolhidas as metáforas, tenta uma classificação e uma organização de imagens, seguindo um caminho de inclusão dos grupos imagéticos em dois dos quatro elementos clássicos - ar e água -, com o apoio da psicanálise e em processos de classificação temática procura estabelecer a sintaxe das imagens que o poeta é. Conclui, tendo como ponto de partida o texto, que a obra explica o homem "o mesmo homem que inscreveu ,segundo uma verdade ontológica, as suas realidades na matéria da língua". As realidades de Pessoa que mais depressa se percepcionam são o sentido de morte em plano horizontal, o que o faz um grande solitário à beira da vida que é forçoso viver e que o conduz à sensação do " escorrer "dos dias e do tempo desligado. A consciência do tempo leva-o ao tédio e arrasta-o à resultante da incompatibilidade entre a existência e a razão - assim acaba no absurdo. Liberta-se da realidade próxima objectiva e lança-se nos sonhos sem limite - encontra uma paz feita de irreal , mas nem por isso menos concreta. Para a expressão destas realidades, há uma organização de imagens à volta de uma que é mais forte e as domina , a "image nourriciére" de que fala Bachelard. O poeta deixa uma família de imagens coordenar-se e hierarquizar-se pela eleição da mais forte que vai ser o testemunho do seu pré-consciente. O espaço integrará extensões indefinidas de imensidade e espaços circunscritos a pequenas dimensões, e todas serão a acusação duma forma de solidão perante a imensidade dos mundos ou da vida quotidiana; em torno do elemento água organizar-se-ão as imagens contraditórias de águas correntes e de águas paradas , de mar calmo e de mar agitado, símbolos de um tipo de destino; som, cor, luz, noite, céu azul, traduções de sensações desmesuradas "subtis e evanescentes", têm como imagem centralizadora o ar, símbolo duma plenitude sonhada. O tempo será o denominador comum dos quatro poetas, todos eles empenhados num sistema aparentemente diferente de procura,mas todos a acabar na inutilidade duma pesquisa que leva ao absurdo. É a consciência que cria os absurdos, é a inteligência que cria os paradoxos - o encontro duma verdade com a respectiva contradição lógica ou outra verdade. Do estudo realizado, sempre e só fundamentado
no texto, Glória Padrão chega à conclusão
de Jacinto Prado Coelho: Fernando Pessoa não é uma divisão
em personalidades diferentes; na sua diversidade formal, há
uma unidade de problemas. Fonte: http://www.ufp.pt/ - Universidade Fernando Pessoa - Portugalfff |