Tradução

A Augustine

Ormond 27 de Novembro de 1909.

Meu querido Ormond,

Tendo felizmente chegado ao fim da tua petulante composição, cuja principal intenção é não provar aquilo que tem sido provado como não provado, tirei daí a apta conclusão de que quanto mais depressa um ponto final for posto nesta discussão asinina, melhor será para a estabilidade dos nossos intelectos. Muitas controvérsias são agradáveis e até refrescantes para as mentes perturbadas, já que o exercício da luta pela superioridade estimula todos os poderes não exercitados do cérebro, mas quando caem na parvoíce e levam à mais grosseira obscuridade, são mais próprias para enevoar a mente e provocar o ridículo nos poderes racionais dos vários antagonistas. Na nossa despropositada contenda segundo um estilo superior, ao qual o tema tem sido inteiramente sacrificado, conseguimos pelo menos perder de vista o nosso objecto original, bem como os motivos que nos levaram a introduzir as listas de argumentos neste traje idiota. Por outras palavras, as nossas razões e opiniões contrárias, formuladas na mais abstrusa e desagradável linguagem, brilham mas não queimam, espantam mas não convencem.

Que, daqui para a frente, meu querido Ormond, o nosso louvável objectivo seja exercitar os nossos cérebros da maneira que sugeriste, em vez de os secar com o uso de desautorizadas observações e sarcasmos sobre os interesses e capacidades um do outro.

Aceitando a tua preciosa sugestão, dirigi-me ontem à varanda da câmara de Londres e dei então uma vista de olhos pelas belezas circundantes. Sendo de um temperamento estético decidido, fiquei logo chocado com a deficiente simetria das estruturas à volta - uma simetria tão contrária às regras usuais da Natureza que me senti levado a procurar algures um objecto satisfatório no qual pudesse fixar o meu olhar vagabundo. Não havia nenhum. Os únicos feitos pela natureza que os meus olhos puderam encontrar foram um céu negro, 2 kafires ainda mais negros e umas gotas de chuva que me cegaram durante uns bons cinco minutos. Depois de recuperar a minha visão normal, o que só consegui com um esforço considerável, já que o meu primeiro aparente tratamento para um olho magoado foi bater com a cabeça num dos pilares de ferro que suportavam a varanda (Diabos levem o arquiteto que o lá pôs), consegui lentamente lembrar-me de que estava ali com um propósito qualquer e não para verificar penosamente que estava encharcado até aos ossos. Peço-te, por isso, que não voltes a pedir-me tão difícil empresa, pois, acredita, um olho magoado, uma cabeça inchada e uma estúpida constipação não são exactamente as recompensas que eu esperava da Natureza para as minhas amáveis atenções. Na tua próxima carta, solicito as tuas opiniões acerca do assunto acima, no cumprimento do qual experimentei infelizmente os mais desagradáveis reveses.

Sou, meu querido Ormond

Sinceramente teu (mais muito magoado)

F. Pessôa

Notas explicativas carta nº 6
O destinatário, Augustine Ormond, fora antigo condiscípulo de Pessoa em Durban. Ao seu testemunho muito se deve do (escasso) conhecimento da infância e adolescência do poeta na África do Sul. Os dois ter-se-ão correspondido durante cerca de vinte anos, até a Grande Guerra, e, segundo depoimento da filha de Ormond, a perda do contato deveu-se certamente à ida do pai para a Austrália (Jennings, op. cit.) No rascunho da carta, o autor considerou a hipótese de alterar a palavra "adverse" (linha 15 ) para conflicting (conflituosas) e "sarcasms" (linha 20 ) para "ironies" (ironias).