Tradução

A Armando Teixeira Rebelo

Hotel Brito, Portalegre.
24 de Agosto de 1907

Venerável porção de existência terrena!

Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica - nada mais nada menos do que vinho - não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu.

Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente - abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo- nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até mim a idéia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o " bálsamo em Gilead", sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado.

Daí esta carta.

Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda e cuidada análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semi-espanholismo e nada. O vinho é bom (embora não daqui, creio), mas é decididamente alcoólico, especialmente quando a jarra de água está na outra extremidade da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esqueço) de o pedir. O estilo desta carta é disso uma prova decisiva. Farei dela registro, para que uma tão brilhante produção do meu espírito não se perca no correio.

A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado - poeticamente falando, é claro - Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e eu tenho-os olhado e observado com a maior das energias.

Acredito sinceramente que, se tivesse que ficar um mês, teria de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiper-aborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! Encontrei um livro para ler. Estou ansioso por voltar para Lisboa; penso contudo que ainda terei de ficar aqui mais uns três dias.

O Alentejo visto do comboio

Nada com nada em sua volta
E algumas árvores no meio,
Nenhuma das quais claramente verde,
Onde não há vista de rio ou de flor.
Se há um inferno, eu encontrei-o,
Pois se não está aqui, onde Diabo estará?

Passa bem, ó tu

F. Nogueira Pessôa

P.S. Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então.

Notas explicativas carta nº 5
A carta é dirigida a Armando Teixeira Rebelo, um dos primeiros amigos que Pessoa teve em Lisboa. Seu condiscípulo no Curso Superior de Letras e, mais tarde, seu compadre ( Pessoa foi padrinho da filha de Teixeira Rebelo, Signa, com quem manteve também relações até o fim da vida), o destinatário acompanhou-o sempre na sua amizade. O fato de ter tido também uma formação anglo-saxônica ( fora educado em Pretória) muito deve ter contribuído para a aproximação entre os dois. Conforme testemunha D. Signa Osório Teixeira Rebelo, o pai, a mãe (Beatriz Osório, que fora igualmente condiscípula dos dois amigos no Curso Superior de Letras) e Fernando Pessoa conversavam os três sempre em inglês.

A ida a Portalegre e as diligências aí feitas por Pessoa prendem-se com a compra de máquinas para a Tipografia Íbis, que o poeta resolvera instalar em Lisboa e na qual investiu o dinheiro da herança da sua avó Dionísia.

Transcrevemos a tradução que acompanha a publicação do original inglês por João Gaspar Simões. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 - Editora Companhia das Letras