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Tradução A Armando Teixeira Rebelo Hotel Brito, Portalegre. Venerável porção de existência terrena! Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica - nada mais nada menos do que vinho - não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu. Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente - abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo- nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até mim a idéia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o " bálsamo em Gilead", sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado. Daí esta carta. Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda e cuidada análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semi-espanholismo e nada. O vinho é bom (embora não daqui, creio), mas é decididamente alcoólico, especialmente quando a jarra de água está na outra extremidade da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esqueço) de o pedir. O estilo desta carta é disso uma prova decisiva. Farei dela registro, para que uma tão brilhante produção do meu espírito não se perca no correio. A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado - poeticamente falando, é claro - Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e eu tenho-os olhado e observado com a maior das energias. Acredito sinceramente que, se tivesse que ficar um mês, teria de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiper-aborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! Encontrei um livro para ler. Estou ansioso por voltar para Lisboa; penso contudo que ainda terei de ficar aqui mais uns três dias. O Alentejo visto do comboio Nada com nada em sua volta Passa bem, ó tu F. Nogueira Pessôa P.S. Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então. Notas explicativas carta nº
5 A ida a Portalegre e as diligências aí feitas por Pessoa prendem-se com a compra de máquinas para a Tipografia Íbis, que o poeta resolvera instalar em Lisboa e na qual investiu o dinheiro da herança da sua avó Dionísia. Transcrevemos a tradução que acompanha a publicação do original inglês por João Gaspar Simões. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 - Editora Companhia das Letras |