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Carta de Amor Domingo, 29/11/1920 Ophelinha: Agradeço a sua carta. Ella trouxe-me pena e allivio ao mesmo tempo. Pena, porque estas cousas fazem sempre pena; allivio, porque, na verdade, a unica solução é essa - o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amisade inalteravel. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade? Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se attribuissem. O Tempo, que envelhece as faces e os cabellos, envelhece
tambem, mas mais depressa ainda, as affeições violentas.
A maioria da gente, porque é estupida, consegue não
dar por isso, e julga que ainda ama porque contrahiu o habito de se
sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz
no mundo. As creaturas superiores, porém, são privadas
da possibilidade d'essa illusão, porque nem podem crer que
o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por
elle a estima, ou a gratidão, que elle deixou. Na sua carta é injusta para commigo, mas comprehendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com magua, mas a maioria da gente - homens ou mulheres - escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio optimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a felicidade que
merece, por certo que não será sua a culpa. O amor passou. Mas conservo-lhe uma affeição inalteravel, e não esquecerei nunca - nunca, creia - nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequeneina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua indole amoravel. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe attribúo, fossem uma illusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lh'as attribuisse. Não sei o que quer que lhe devolva - cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memoria viva de uma passado morto, como todos os passados; como alguma cousa de commovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos annos é par do progresso na infelicidade e na desillusão. Peço que não faça como a gente
vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara
quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação
em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos
desde a infancia, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora
na vida adulta sigam outras affeições e outros caminhos,
conservam sempre, num escaninho da alma, a memoria profunda do seu
amor antigo e inutil Fernando |